Bassam Khabieh|Reuters
Bassam Khabieh|Reuters

Síria descumpre cessar-fogo da ONU e ataca rebeldes

Um dia após resolução das Nações Unidas pedindo trégua de 30 dias em Ghouta Oriental, regime de Bashar Assad bombardeia região que registrou 500 civis mortos em uma semana

O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2018 | 16h40

BEIRUTE - Ao menos seis pessoas morreram neste domingo, 25, em bombardeios na Síria, um dia depois da aprovação unânime pelo Conselho de Segurança da ONU de uma resolução exigindo um cessar-fogo de 30 dias no país. Forças do regime sírio realizaram ataques aéreos contra rebeldes em Ghouta Oriental, subúrbio de Damasco. A resolução da ONU exigiu trégua "sem demora" após a morte de mais de 500 civis em uma semana, para distribuir ajuda humanitária e retirar os feridos da área sitiada.

Segundo ativistas da oposição, os ataques começaram ainda na noite do sábado, pouco tempo depois que a resolução da ONU fora divulgada. De acordo com o Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH), além dos ataques aéreos também houve confrontos de artilharia entre forças do governo e rebeldes.

O Irã, grande aliado de Damasco, advertiu que a ofensiva contra "grupos terroristas" continuaria. O regime de Bashar Assad lançou, em 18 de fevereiro, uma intensa campanha aérea contra Ghouta Oriental, que é o prelúdio, de acordo com o OSDH e a imprensa local, de uma ofensiva terrestre destinada a recuperar o controle deste enclave muito próximo de Damasco.

Ativistas, no entanto, afirmam que a violência diminuiu desde o início do conflito. "Esta foi a noite mais calma desde o último domingo", disse Rami Abdurrahman, que dirige o OSDH, baseado na Grã-Bretanha, se referindo ao dia em que os confrontos entre tropas e rebeldes foram os mais intensos.

A TV estatal síria disse que o exército capturou vários edifícios no subúrbio rebelde de Harasta e ampliou as linhas de batalha em Ghouta Oriental, que está cercada por forças do governo por todos os lados.

O Ghouta Media Center, um coletivo ativista, disse que membros do grupo insurgente Exército do Islã repeliram os ataques do exército sírio em várias frentes e acrescentou que muitos soldados foram mortos. As informações não foram confirmadas pelas forças de segurança sírias.

Atípico. Esta campanha do regime, apoiada militarmente por Moscou, tem sido de rara violência, mesmo na escala de um país despedaçado desde 2011 por um conflito que fez 340 mil mortes.

Neste domingo, oito civis foram mortos nos bombardeios do regime, de acordo com o OSDH, elevando o balanço total de vítimas desde o início da operação a 529 civis mortos, dentre os quais 130 são crianças.

Em retaliação às incursões aéreas, os insurgentes dispararam foguetes contra Damasco, que mataram cerca de 20 pessoas desde 18 de fevereiro, de acordo com a imprensa oficial.

"Síria martirizada". Todos os dias, os correspondentes da agência AFP em Ghouta Oriental testemunham as mesmas imagens: corpos alinhados em necrotérios de hospitais improvisados, crianças chorando e com os rostos ensaguentados, socorristas esgotados, envolvidos em nuvens de poeira tentando resgatar vítimas dos escombros.

Treze combatentes pró-regime e seis membros do grupo rebelde islamita Jaich al-Islam foram mortos nos confrontos, de acordo com o Observatório. Várias tréguas foram adotadas na Síria nos sete anos de conflito, quase sempre terminando em fracasso.

Segundo o Kremlin, Vladimir Putin, Emmanuel Macron e Angela Merkel defenderam a "continuação dos esforços conjuntos" para o estabelecimento da trégua desejada pela ONU durante uma conversa telefônica neste domingo.

Uma fonte oficial em Berlim afirmou que a chanceler alemã e o presidente francês pediram a sua contraparte russa que exerça "pressão máxima" sobre a Síria para uma aplicação "imediata" da resolução da ONU.

Por sua vez, o papa Francisco fez neste domingo "um apelo urgente para a cessação imediata da violência". "Nestes dias, meus pensamentos estão voltados para a Síria amada e martirizada", lamentou.

"Traição". A resolução da ONU prevê exceções ao cessar-fogo para os combates contra vários grupos jihadistas. Elas podem dar origem a interpretações contraditórias porque Damasco descreve todos os rebeldes como "terroristas".

Em Teerã, o chefe de Estado-Maior do Exército, o general Mohammad Bagheri, citado pela agência oficial de notícias Irna, também foi categórico: "as áreas da periferia de Damasco que estão nas mãos de (grupos) terroristas não estão incluídas no cessar-fogo e as ofensivas do Exército sírio vão continuar".

Sitiada desde 2013, Ghouta Oriental e seus 400.000 habitantes vivem uma severa escassez de alimentos e remédios. E para escapar das bombas do regime, os civis agora vivem em porões. 

Em Ghouta, a votação da resolução da ONU não convenceu os habitantes. "Não podemos confiar nem na Rússia nem no regime, estamos acostumados com sua traição", disse Abu Mazen, residente de Duma.

"Eu não acho que essa decisão será implementada". "Mais de uma vez ouvimos essas promessas: a entrada de ajuda humanitária e o fim dos bombardeios, mas todos os dias a força aérea nos bombardeia e todos os dias há mortos", afirmou. / AFP

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