'Síria e Iraque formam uma nova geração de jihadistas'

Radicalização de jovens na França tem origem em grupos formados ainda na crise da Argélia, no início dos anos 1990

Entrevista com

Louis Caprioli, ex-subdiretor de Luta Contra o Terrorismo do serviço secreto francês

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2015 | 02h03

Quais são as origens da radicalização de alguns movimentos islâmicos na França?

Creio que o fenômeno de radicalização islâmica remonta ao início dos anos 1990, com a crise na Argélia e o início de um movimento, a Frente Islâmica de Salvação (FIS), que se projetou na França e fez proselitismo ao mesmo tempo religioso e político. Com a vitória eleitoral de dezembro de 1991 na Argélia e a anulação da eleição, houve uma guerra civil no país e boa parte de seus radicais se refugiaram na França e em vários países da Europa. Em 1993 houve um primeiro atentado. Deste então, o movimento foi se implantando. A partir de 1994, houve as primeiras descobertas de redes. Logo não é um fenômeno que emergiu nos últimos anos.

Hoje, o problema parece ser o treinamento de jihadistas na Síria, Iraque, Iêmen, Paquistão.

Sim. Na França prendemos a partir de 1997 pessoas que haviam passado por campos de treinamento no Oriente Médio e no Norte da África, como Djamel Beghal, mentor dos irmãos Kouachi e de Coulibaly. Com os atentados de 2001 nos EUA e o fechamento do Afeganistão, apareceram os campos de treinamento no Paquistão. A guerra do Iraque de 2003 abriu as portas para uma nova geração, com numerosas células terroristas.

A desestabilização do Oriente Médio e a questão Palestina são fatores de radicalização?

Creio que há dois fenômenos. Os ocidentais não viram a dimensão da Primavera Tunisiana, que colocou os ocidentais em posição desconfortável. A partir de então, o Ocidente demonstrou apoio à Primavera Árabe, a ponto de fazer um apoio direto na Líbia, onde houve a implosão do Estado. Ainda que Líbia e Mali tenham implicações para a Europa, no entanto, não é de lá que virão terroristas cometer atentados na Europa. É da Síria e do Iraque, que atraem europeus prontos a retornar no futuro. Síria e Iraque formam uma novíssima geração de jihadistas, formados a partir de 2012.

Como se dá o recrutamento? 

Em termos quantitativos, é impossível saber, mas foram dezenas de pequenas células já identificadas e neutralizadas nos últimos dois ou três anos. Em 2003, 2004, bastava partir a Damasco, onde as mesquitas operavam células que facilitavam a ida de jihadistas ao Iraque. A nova geração é idêntica. É fácil encontrar uma célula de recrutamento, que permite ao jovem chegar à Síria.

Qual é a explicação?

Há vários fenômenos, mas gosto de examinar o passado para entender. Na França, tivemos uma importante comunidade vinda do Magreb, que se soma a um fenômeno de "reislamização" das novas gerações. Os imigrantes originais praticavam um Islã tolerante.

E a marginalização social? Não faltam oportunidades?

Claro, em meio a tudo isso há um fenômeno social e econômico. A França sempre teve um comportamento mais ou menos racista em relação aos imigrantes, mesmo vindos de outros países europeus. Em relação aos imigrantes da África, ainda há o contencioso colonial, mas se só a questão social explicasse o radicalismo, o jihadismo envolveria milhões de pessoas, e não uns poucos milhares.

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