Síria e Iraque veem radicais consolidarem seu Estado de horror

THE NEW YORK TIMES / ISTAMBUL

Tim Arango, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2015 | 02h04

O Estado Islâmico usa o terror para impor a obediência. Confiscou territórios, destruiu antiguidades, degolou minorias, obrigou mulheres a tornarem-se escravas sexuais e transformou crianças em assassinos. Seus dirigentes, porém, aparentemente, são resistentes a subornos e, neste aspecto, pelo menos, sobrepujou os governos corruptos da Síria e Iraque que ele combate. É o que afirmam moradores e especialistas.

"Você viaja de Raqqa para Mossul e ninguém ousa abordá-lo, mesmo se estiver carregando US$ 1 milhão", disse Bilal, que vive em Raqqa, capital de facto do Estado Islâmico na Síria, que insistiu para não ter o sobrenome divulgado. "Ninguém ousaria tirar um dólar de mim".

O EI inicialmente era apenas uma organização terrorista, embora muito mais brutal do que a Al-Qaeda. Depois, começou a se apoderar de terras e, na medida em que controla territórios e cria capacidade de governo, o grupo se transforma em um Estado que funciona plenamente - utilizando a violência extrema como instrumento.

Para os que vivem sob o governo do EI, ele oferece uma relativa estabilidade numa região atribulada por guerra, caos e, ao mesmo tempo, vem preenchendo o vazio deixado por governos falidos e corruptos que também usam violência, repressão, tortura e detenção.

O EI vem implementando todo tipo de medida associada a uma governança: expede documentos de identidade, promulga diretrizes sobre pesca para preservar os estoques e exige que os carros mantenham kits para situações de emergência. Essa transição poderá exigir que o Ocidente reformule seu enfoque primariamente militar no combate ao grupo.

"Acho que teremos de ver o grupo como uma organização revolucionária construindo um Estado", disse Stephen Walt, professor de relações internacionais da John F. Kennedy School of Government, em Harvard. Ele faz parte de um pequeno, mas crescente, grupo de especialistas que contesta

a noção de que a perversidade do EI garantirá sua inevitável destruição". Em ensaio recente na revista Foreign Policy,

intitulado O que devemos fazer se o Estado Islâmico vencer?, Walt afirma que o EI pode realmente se impor no controle de grandes áreas da Síria e do Iraque, incluindo Mossul, a segunda maior cidade iraquiana.

Segundo Walt, "uma vitória do Estado Islâmico seria o fato de o grupo reter o poder sobre as áreas que controla hoje e resistir aos esforços estrangeiros para degradá-lo e destruí-lo". Walt acrescenta que depois de quase um ano de ataques aéreos americanos contra o grupo, está claro que somente uma intervenção externa em grande escala conseguirá rechaçar e eliminar o Estado Islâmico.

Ele não é o único especialista a pensar assim. É um argumento apoiado por uma crença generalizada de que uma estratégia militar, sem uma reconciliação política para oferecer aos sunitas descontentes um poder alternativo, não será suficiente para derrotar o EI. Isto porque muitos sunitas de ambos os países que vivem sob o comando do grupo não se deparam com nenhuma alternativa viável, especialmente no caso de voltarem a viver sob os governos da Síria e do Iraque. Os sunitas no Iraque continuam hostis ao governo central controlado pelos xiitas.

No caso da Síria, o presidente Bashar Assad está envolvido em uma guerra civil que já matou mais de 200 mil pessoas e desalojou metade da população. "Honestamente, ambos são assassinos, o regime e o EI", disse Ahmed, proprietário de uma loja de antiguidades que fugiu para Raqqa para evitar os ataques aéreos. Mas, segundo ele, o EI

"é mais tolerável em Raqqa". Ahmed também viveu sob o governo do Exército Livre Sírio, grupo que surgiu em 2011 para combater o governo da Síria. Mas, para ele, o Exército Livre Sírio é semelhante ao regime. "São ladrões".

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