Muzaffar Salman/AP
Muzaffar Salman/AP

Síria ignora Liga Árabe, que imporá sanções

Fim do ultimato coincide com vazamento de relatório que denuncia tortura de crianças

Jamil Chade, correspondente

25 de novembro de 2011 | 22h17

GENEBRA - O ultimato dado pela Liga Árabe para que o regime de Bashar Assad aceite uma missão observadora na Síria acabou na tarde da sexta-feira, 25. Uma reunião deve decidir neste sábado quais sanções econômicas contra Damasco serão adotadas. A pressão contra o ditador deve aumentar com a divulgação, na segunda-feira, do resultado da investigação liderada pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro sobre a repressão à oposição síria.

 

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O governo sírio enviou uma carta ao secretário-geral da Liga Árabe, Nabil al-Arabi, pedindo mais detalhes sobre a missão e seu status legal. Segundo um diplomata, a entidade esperaria até o fim do dia por um acordo com Assad. Se a situação permanecer inalterada, a Liga Árabe deve optar pela suspensão dos voos para a Síria e pelo congelamento de ativos e de transações financeiras de membros do regime.

 

Damasco não tem dado sinais de que cederá. Na sexta, segundo entidades de direitos humanos ligadas à oposição, 11 manifestantes foram mortos pelas forças de segurança. O Exército, cuja cúpula ainda é leal a Assad, prometeu "prosseguir com a defesa da segurança nacional e reagir a todas as ameaças". "Cortaremos qualquer mão maligna que queira derrubar o sangue sírio", diz o comunicado publicado pela agência Sana.

 

A investigação de Paulo Sérgio Pinheiro, segundo pessoas que tiveram acesso a um rascunho do documento, deve revelar detalhes da cruel repressão de Assad aos manifestantes. Segundo ela, crianças foram executadas e há relatos de torturas em hospitais. Funcionários da ONU disseram estar "totalmente escandalizados" com o relatório, principalmente no que se refere à tortura. "Poucas vezes viu-se um sistema de repressão tão completo, com a tortura sendo utilizada politicamente e nos mais diferentes setores", explicou um especialista que leu um rascunho do texto.

 

"Pelo que parece, uma máquina de tortura foi criada para silenciar todo um país", acrescentou o especialista. "Ela não ocorre apenas em prisões, mas em hospitais, colégios, centros de atendimento e ministérios."

 

Informações

 

Na sexta, o Comitê da ONU contra a Tortura declarou-se "profundamente preocupado" com a violência contra crianças na Síria. Segundo a entidade, menores têm sido sistematicamente presos, torturados, mutilados e executados.

 

Uma investigação do governo francês chegou à mesma conclusão. A inteligência de Paris, com base em relatos de pessoas que abandonaram o governo e passaram a apoiar a oposição, descobriu que crianças têm sido sequestradas, torturadas e assassinadas. Os corpos são abandonados nas portas de suas casas.

 

Pinheiro, que está impedido de comentar o documento até segunda-feira, foi convidado a liderar o processo de investigação independente pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU. No dia 2, o órgão volta a se reunir para debater o texto.

 

Ex-ministro de Direitos Humanos no governo de Fernando Henrique, Pinheiro foi escolhido pela ONU pois, sendo brasileiro, poderia ter ainda um certo acesso ao governo sírio. Mas o diplomata não pôde entrar com seu grupo de investigadores na Síria. Limitou-se a entrevistar refugiados, teve acesso à inteligência de diversos governos e a informações de ONGs.

 

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