Larry Downing/Reuters
Larry Downing/Reuters

Síria inicia adesão a tratado que veta armas químicas; EUA exigem rapidez

Secretário de Estado americano pede permissão para atacar caso Damasco ignore plano; chanceler russo alega que ação militar desestabilizaria toda a região

Jamil Chade, Correspondente

12 Setembro 2013 | 22h55

Bashar Assad anunciou nesta quinta-feira, 12, que aceita entregar suas armas químicas e começou o processo de adesão à convenção da ONU que controla esse tipo de armamento. O governo americano, porém, rejeitou o prazo de 30 dias pedido por ele para começar a desmantelar seu arsenal, disse que promessas não são suficientes e, clandestinamente, começou a armar os rebeldes.

"Isso não é um jogo", alertou John Kerry, secretário de Estado americano, que quer provas do compromisso de Damasco e uma permissão ao uso de força caso Assad viole suas promessas. O americano insistiu que se as armas químicas não forem destruídas, uma intervenção militar ocorrerá.

Nesta quinta, Kerry e o chanceler russo Sergei Lavrov iniciaram negociações em Genebra para estabelecer um mecanismo que garanta a retirada e a destruição das armas de forma rápida - com possíveis sanções caso Damasco não siga os planos.

A pausa para a diplomacia feita por Barack Obama, porém, deixou o cenário aberto para que Vladimir Putin assumisse o protagonismo. Foi dele a iniciativa do encontro e é do Kremlin a proposta que está pautando a agenda internacional - formalizada após uma sugestão aparentemente involuntária de Kerry.

Antes do início do encontro na Suíça, Assad declarou que seu arsenal químico seria colocado sob controle internacional, mas rejeitou a ideia de que a medida fosse resultado das ameaças de Obama e pediu 30 dias para que as novas leis vigorem. "A Síria está colocando suas armas químicas sobre o controle internacional em razão da Rússia. As ameaças americanas não influenciaram em nossa decisão", disse Assad. Outra medida foi a de aderir à Organização para a Proibição de Armas Químicas. Nesta quinta-feira a ONU recebeu documentos pedindo a adesão, mas é preciso 30 dias antes de o novo membro ter de cumprir as regras internacionais.

"Isso vai prevenir uma intervenção militar na Síria, o que apenas desestabilizaria toda a região. Obama já indicou que quer uma solução política", defendeu Lavrov.

Kerry questionou a credibilidade de Assad e rejeitou o prazo de 30 dias para que os documentos de adesão sejam processados. "Não há nada padrão sobre esse processo justamente pela maneira que o regime está se comportando", disse. "As palavras do regime sírio não são suficientes e é por isso que estamos aqui para trabalhar com os russos, para garantir que isso seja atingido."

Kerry acusou Assad pelos ataques do dia 21 e tentou jogar a responsabilidade por um fracasso nas negociações para os russos. "As expectativas são altas para os EUA, mas ainda mais para a Rússia", disse.

O que colocou Lavrov e Kerry em lados opostos já nas primeiras horas de debate foi justamente o que deveria ser feito contra Assad se Damasco ignorasse o acordo ou suas próprias palavras. "Deve haver consequências se os compromissos forem violados", disse Kerry. "Queremos uma solução pacífica. Mas se a via diplomática não funcionar, poderemos ter de usar a força", completou. Para os russos, Assad não entregará suas armas enquanto houver uma ameaça militar contra ele.

Durante as negociações, os americanos tentarão testar se o plano de Moscou e o anúncio de Damasco são reais. Um dos testes seria ver a reação de Assad diante do controle imediato dos estoques. Isso impediria que ele voltasse a usar as armas.

Não são apenas os americanos que têm dúvidas. nesta quinta, o chanceler britânico, William Hague, alertou que o plano russo teria de ser tratado "com cautela". Entre os rebeldes sírios, a proposta também foi rejeitada. O general Salim Idriss, que comanda o Exército Sírio Livre, criticou o plano e pediu que os autores dos ataques químicos sejam levados à Justiça.

Os americanos acreditam que não será fácil recuperar os arsenais em um país em guerra civil. Especialistas militares de ambos os lados comparam dados e tentam mensurar o tamanho do arsenal químico de Assad - o Pentágono estimar seja 1,4 mil toneladas de agentes.

Embora as negociações avançassem em Genebra, Kerry deixou claro que os militares americanos continuariam a se posicionar próximos à Síria. Na quarta-feira, o Washington Post revelou como serviços americanos fizeram as primeiras entregas de armas leves e munições aos rebeldes. O fornecimento teria começado logo depois dos ataques químicos do dia 21. CIA e rebeldes negam a informação. Mas a iniciativa foi interpretada pelos russos como uma mensagem de que Washington mantém seu plano militar.

Os russos não demoraram para responder e nesta quinta-feira iniciaram o maior deslocamento naval desde os tempos soviéticos no Mediterrâneo. O navio Smetlivy deixou a base de Sebastopol, na Ucrânia, na direção da Síria, acompanhado por outras embarcações de guerra. Outro navio que estava no Mar Negro também iniciou sua viagem para a costa síria. Hoje, os russos têm 11 navios no leste do Mediterrâneo, contra 5 dos EUA.

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