AFP PHOTO / Sameer Al-Doumy
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Síria mergulha em nova onda de violência, alerta ONU

Cerca de 600 mil pessoas estariam vivendo em estado de sítio enquanto que número refugiados do conflito passa de 5 milhões, aponta relatório da Comissão de Inquérito das Nações Unidas

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2016 | 10h57

GENEBRA - Sem o acordo entre EUA e Rússia sobre o destino do presidente Bashar Assad, a guerra civil na Síria volta a se intensificar, atingindo 5 milhões de refugiados e deixando a mais de 600 mil civis sitiados à beira da fome. Esse é o resultado do novo relatório produzido pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Inquérito da ONU sobre os crimes na Síria, que denuncia uma "escalada sem precedentes" da violência, numa guerra que já dura cinco anos. 

"Desde março, vemos uma retomada intensa dos combates, com ataques desproporcionais e indiscriminados contra civis", alertou Pinheiro. Com o fim da trégua negociada em fevereiro, o resultado foi a volta de uma violência ainda mais marcante. "Houve um aumento trágico da violência contra civis, esmagando esperanças de paz", alertou a Comissão. 

Em seu relatório, o grupo aponta para ataques indiscriminados contra a população, contra hospitais, médicos e o bloqueio de ajuda humanitária. Além disso, o país mergulhou uma vez mais em uma onda de execuções sumárias, desaparecimentos e tortura. "Os sírios vivem em um estado de desespero", alertou. "Os ataques incessantes não dão sinais de acabar, pondo fim as esperanças de uma paz duradoura no país", disse Pinheiro. 

Segundo ele, a violência atingiu "níveis sem precedentes" em Alepo e as mortes aumentam de forma inédita. "Enquanto alguns morrem pelas bombas, outros pela falta de remédios ou tentando salvar vidas", indicou. "A intensificação dos ataques em hospitais é uma violação flagrante da lei internacional", denunciou o brasileiro, que chama os atos de "crimes de guerra". O fato de médicos e hospitais terem passado a ser alvo de ataques acabou enfraquecendo o sistema de saúde, criando uma crise ainda mais profunda. 

Para Pinheiro, os ataques são realizados em muitos casos por grupos pró-governo e feitos de forma "deliberada e sistemática" para punir a população em locais controlados pela oposição. Só em Alepo foram 20 hospitais destruídos desde janeiro. A mesma tática também é usada pelo Estado Islâmico para aterrorizar a população.

Segundo a ONU, "as hostilidades foram reiniciadas em áreas que desfrutavam de uma paz relativa nos primeiros anos do conflito". Os bombardeios são realizados principalmente por forças pró-Assad. Já a oposição tem também atacado áreas residenciais, além de usar o sequestro de civis como arma. "Ataques de todos os lados tem matado centenas de pessoas, muitas delas crianças", alertou o documento. 

Pinheiro destaca que 600 mil de civis estão hoje sitiados por grupos armados que usam bloqueios a cidades inteiras como arma de guerra. Esse número representa um aumento de 100 mil pessoas em comparação ao que já existia em janeiro. No total, 6,6 milhões de pessoas vivem em áreas afetadas por algum tipo de controle, 800 mil a mais que o que havia sido registrado há seis meses. Mas o temor de Pinheiro é de que se Alepo for definitivamente sitiada, mais 300 mil pessoas poderiam sofrer com a falta de alimentos, medicamentos e outros bens de primeira necessidade. 

Os detalhes sobre a situação humanitária revelam que em algumas regiões, como Al Waer, a população foi obrigada a comer grama e queimar suas roupas para cozinhar. O bloqueio a ajuda humanitária também significa um aumento significativo no preço dos alimentos. E, segundo Pinheiro, seria justamente os lucros obtidos por esses grupos de vendedores que estariam também agindo como um contra-incentivo para que a guerra seja interrompida. 

Em fevereiro, uma tentativa de cessar-fogo foi negociada, criando expectativas de que o conflito poderia ser encerrado. Mas, sem um cessar-fogo definitivo entre as potencias e grupos armados, a violência que se seguiu já teria gerado "centenas de mortes". 

Quem consegue escapar das bombas acaba sendo obrigado a deixar suas casas. Desde a intensificação da guerra, aumentou de forma importante o número de refugiados internos e externos. Dentro do país, já são 6,6 milhões de pessoas em acampamentos improvisados. Fora da Síria, quase 5 milhões de refugiados buscam proteção pelo mundo. 

Contrariando o discurso de líderes populistas, o brasileiro alerta que apenas 10% dos sírios foram para a Europa. A maioria deles - 4 milhões - estão, na realidade, em outros países do Oriente Médio. Pinheiro também denuncia a falta de solidariedade de outras regiões do mundo. "Países com alta renda fora da Europa não providenciaram lugares para refugiados sírios", afirmou, num recado à comunidade internacional.

Dentro da Síria, a ONU denuncia a onda de mortes sistemáticas de prisioneiros pelo governo e outros grupos, no que seriam crimes de guerra e crimes contra a Humanidade. Homens continuam desaparecendo das ruas do país em ações de grupos armados para lutar ou simplesmente minar a população de eventual resistência. "Dezenas de milhares estão desaparecidos", indica o estudo. Segundo a ONU, famílias são obrigadas a pagar propinas para saber onde estão seus parentes. 

O desaparecimento de homens também deixa muitas mulheres no limbo, sem poder vender suas propriedades, sem renda e sem poder voltar a se casar oficialmente. Já as crianças estão entre as principais vítimas, seja dos ataques indiscriminados ou seja por não poderem ir às escolas. Doenças como a cólera, pólio e outras voltaram a aparecer.

Também aumentaram os casos de sequestros, como forma de garantir recursos para grupos armados. Tal prática tem sido principalmente dirigida contra mulheres e crianças, enquanto famílias se apressam a buscar recursos para conseguir a soltura. "Membros de facções estão usando a guerra para enriquecer", constatou Pinheiro. 

Papel de Assad. O brasileiro não hesita em destacar a responsabilidade do governo de Bashar Assad que, apoiado pela Rússia, voltou a atacar de forma intensa a infraestrutura de locais controlados pela oposição, mas também escolas e crianças. Segundo ele, as forças governamentais, sob o pretexto de lutarem contra o Estado Islâmico, voltaram a bombardear locais controlados pela oposição moderada. Operações contra rebeldes também ocorreram em Alepo e na área rural de Damasco, resultando em respostas armadas e aumentando a violência. 

De acordo com a ONU, o apoio direto de tropas estrangeiras continua. "Isso tem alimentado a violência", alerta o relatório que destaca ainda que o apoio de Estados a seus grupos protegidos dentro da Síria tem tido impacto decisivo, "fragmentando o conflito e impedindo uma solução diplomática". A entidade destaca ainda que as Forças da coalizão - lideradas por EUA e Europa - têm causado danos colaterais na população e a mortes de civis. 

Nesse cenário, também aumentou o número de ataques indiscriminados por parte do EI. Segundo Pinheiro, as mortes causadas pelo grupo terrorista são "sem precedentes" no conflito sírio. Recorrendo a carros-bomba detonados em locais com grande fluxo de pessoas, o EI passou a matar entre 120 e 200 pessoas em cada um dos grandes atentados pelo país. 

Parte desse recurso para os ataques terroristas vem do fato de o grupo jihadista ter pedido o controle de partes importantes do território sírio nos primeiros seis meses de 2016. Segundo Pinheiro, o EI estaria "sofrendo pressões de múltiplas frentes". 

O grupo terrorista foi derrotado em Hasakah, com impacto em seu acesso ao Iraque. Ele também perdeu importantes partes de Homs e Palmyra, e teve seu acesso ao território da Turquia também afetado. Mas, apesar disso, a ONU alerta que "seu poder de ataque ainda é grande". 

As Forças Democráticas da Síria, apoiada pela coalizão internacional, tem feito "importantes avanços territoriais". Mas esses avanços não tem conseguido minar o controle do EI em Raqqa, sua capital de facto. Já o restante da oposição se estagnou ou foi obrigada a se retrair de algumas áreas.

Nessa nova onda de violência, quem tem conquistado terreno é o governo de Assad, com o apoio decisivo da Rússia. Para a ONU, no entanto, sem acordo de cessar-fogo, é a violência vai ganhar força nos próximos meses. A entidade ainda apela para que governos com poder de influência atuem para colocar pressão sobre os grupos internos na Síria e parem de enviar armas.

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