''Síria não é Líbia, onde tudo foi destruído''

CORRESPONDENTE / PARIS

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2011 | 00h00

Zaki Laidi, cientista político francês

Os levantes árabes não devem ser comparados à queda do Muro de Berlim, mas à Primavera dos Povos na Europa de 1848. A opinião é do cientista político Zaki Laidi, diretor de pesquisas do Instituto de Estudos Políticos (Sciences-Po), de Paris. Estudioso dos conflitos recentes, Laidi vê semelhanças entre os revoltosos de diferentes nacionalidades. "Há corrupção, desigualdade, injustiça e falta de Estado de Direito. Em todos os países, a situação é semelhante", diz. Antes de ir ao Brasil para uma série de palestras em Brasília, São Paulo e Curitiba, ele analisou para o Estado os conflitos no mundo árabe. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como a coalizão pode levar os rebeldes ao poder na Líbia?

Nos casos do Egito e da Tunísia, essa questão foi resolvida quase que milagrosamente pelo fato de que os Exércitos dos dois países não se voltaram contra as populações durante os levantes. É claro que houve mortes, mas ainda assim foi mais fácil, diante dos dispositivos de segurança de que dispunham os dois países. Nos outros casos, como o da Líbia, da Síria, do Bahrein e do Iêmen, vemos que a violência se instalou desde o início. Não creio que essas revoluções triunfarão pelas lutas armadas. A saída é a pressão popular pacífica que obrigue os autocratas a promover reformas profundas nestas estruturas.

Qual sua avaliação das operações militares da coalizão?

A Líbia não vive o melhor dos cenários. A força dessas revoluções e seu sucesso vinha do fato de virem do interior, sem ajuda externa. No caso líbio, sem a ajuda de fora o regime não cairia. Assim, há violência e intervenção exterior, dois parâmetros que parasitam a revolução.

Por que a coalizão hesita em armar os rebeldes?

Eu penso que ela tem razão em fazê-lo. A coalizão acerta ao não armar os rebeldes. A resistência líbia no início dizia: "Nos deem a zona de exclusão aérea e nós fazemos o resto". Depois disso, disseram que só tem armas leves e os pró-Kadafi armas pesadas. Depois talvez digam que é necessário enviar tropas. O exemplo do Afeganistão deve nos incitar a ser extremamente prudentes. É preciso que os líbios se organizem e provem a sua determinação. Mas é claro que não é fácil. É como se alguém de repente nos dissesse, a você e a mim, que temos de usar armas e nos organizar. São estudantes, açougueiros, cabeleireiros que estão indo para um campo de guerra. Não é fácil, ainda mais quando há mercenários, atiradores, etc. É claro que a intervenção da Otan não é neutra, porque não há neutros nesse conflito. Mas é preciso calibrar as operações para que os líbios continuem senhores da situação.

E se Kadafi seguir no poder?

Ele pode se manter no poder, mas não terá nenhuma saída. Vai durar até que parta, porque está excluído que não parta. A coalizão se engajou e a relação de forças está contra Kadafi. Há uma pressão enorme sobre seu regime, não apenas da coalizão. Eles têm dificuldade de obter petróleo refinado, por exemplo. Estão importando o produto, há filas por tudo. Ninguém está trabalhando no país. Há 600 mil trabalhadores estrangeiros que partiram. Kadafi está em um impasse total. No dia em que ele não puder pagar mais seus mercenários, terá ainda mais dificuldades e partirá.

Por que a coalizão tem uma posição para a Líbia e outra para países como a Síria e Bahrein?

Estamos em um mundo real, no qual os países reagem de maneiras distintas. O que seria possível fazer na Síria nesse momento? Não há nada a fazer. Na Líbia, se não tivesse acontecido a intervenção, Kadafi teria massacrado. Ele mesmo o disse. O regime sírio tem alguma uma base social, não é totalmente impopular. E a Síria é um país educado, que conta com intelectuais, com uma classe política. A Síria não é como a Líbia, onde tudo foi destruído.

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