Síria promete fim de estado de exceção

Governo dá sinais de que pretende liberalizar regime, mas manda tropas à cidade portuária onde 12 morreram no fim de semana

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2011 | 00h00

Ao mesmo tempo em que mobilizou tropas para a cidade portuária de Latakia, onde 12 pessoas morreram no fim de semana, o regime sírio, por meio de Bouthaina Shaaban, chefe de gabinete e principal conselheira de Bashar al-Assad, anunciou ontem que o estado de emergência vigente há quase cinco décadas deve ser levantado.

Nos Estados Unidos, em entrevistas conjuntas concedidas a diferentes canais de TV americanos, a secretária de Estado Hillary Clinton e o secretário da Defesa Robert Gates descartaram a possibilidade de uma intervenção na Síria similar à que vem ocorrendo na Líbia.

"A decisão para o levantamento do estado de emergência já foi tomada", disse Shaaban em entrevista à rede de TV Al-Jazira. O repórter insistiu se realmente a medida será tomada e a chefe de gabinete, que tem sido usada como porta-voz do governo na atual crise, respondeu que "absolutamente", mas não disse quando. Shaaban ainda acrescentou à rede de TV do Qatar, no seu canal em inglês, "que também foi determinado que sejam abertos diálogos sobre novos partidos e mais liberdade à imprensa". O único partido em atividade na Síria é o Baath, de Assad.

Ao longo do dia, especulou-se que o líder sírio faria um discurso para a nação, que acabou não acontecendo. Não foi divulgado o motivo do cancelamento ou se foi apenas um adiamento para hoje. Desde a eclosão da crise, Assad não falou publicamente, optando por usar Shaaban.

Para conter os levantes, o Exército sírio enviou tropas adicionais a Latakia. A cidade está distante dos focos dos protestos contra o governo, em Daara. Em Damasco, a maior parte dos atos é a favor do regime de Assad, segundo relatos feitos ao Estado. Parte se deve à decisão de aumentar o salário do funcionalismo, o que teria agradado a população.

Em Washington, ao ser questionada os EUA pretendem se envolver no conflito na Síria, Hillary respondeu que "não". "Cada uma dessas situações é único. Mas obviamente condenamos os ataques (contra opositores) na Síria", afirmou. Mais tarde, em entrevista à rede de TV CBS, Hillary buscou diferenciar Assad de Muamar Kadafi, presidente da Líbia. "Muitos membros do Congresso (dos EUA) dos dois partidos (Republicano e Democrata) que viajaram à Síria nos últimos meses acreditam que ele (Assad) é reformista. O que tem acontecido lá é profundamente preocupante, mas há uma diferença entre isso e bombardear (como Kadafi) suas próprias cidades", acrescentou.

Apesar de manter um embargo econômico unilateral à Síria, os EUA têm tentado uma aproximação com o regime de Damasco desde que Barack Obama chegou ao poder.

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