Síria recusa saída imediata de Assad e amplia incerteza sobre diálogo de paz

Bashar Assad deve permanecer no cargo ao menos até o ano que vem, quando poderá disputar a reeleição, e um eventual acordo internacional sobre a crise síria terá de ser submetido ao povo sírio por meio de um referendo. Foi essa a posição de princípio apresentada ontem pelo chanceler de Damasco, Walid al-Moalem, jogando ainda mais incerteza sobre uma possível saída negociada para a guerra civil na Síria.

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2013 | 02h02

O banho de água fria nas expectativas em relação à conferência de paz sobre a crise síria veio pouco após o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas aprovar, sob intenso protesto de Rússia e China, uma resolução que condena o regime Assad pelo massacre na cidade de Qusair. Proposto inicialmente por EUA e Turquia, o texto prevê uma investigação sobre a violência na região.

Moscou e Pequim atacaram a nova condenação a Assad - a décima, em dois anos - na ONU. Para as duas potências, aliadas de Damasco, a resolução é uma manobra política com o objetivo de ampliar a pressão sobre o regime sírio. O texto foi aprovado com 36 votos favoráveis, 8 abstenções e 1 voto contra. Estima-se que quase 200 pessoas tenham morrido em Qusair. O texto ainda denuncia o número cada vez maior de combatentes estrangeiros atuando ao lado do governo de Assad - implicitamente, apontando o dedo para o grupo xiita Hezbollah.

O primeiro rascunho da resolução limitava-se a condenar as ações do regime sírio. O Brasil foi um dos governos que se recusaram a apoiar a primeira versão do texto e pediu modificações, de modo a incluir também a violência cometida por rebeldes. Com a alteração, o Itamaraty votou em favor do texto (mais informações nesta página).

Ainda assim, Rússia e China, além de Síria e Irã, denunciaram a manobra como uma ação para minar os planos de convocar em junho uma conferência de paz em Genebra que envolva todas as partes. Antes mesmo da votação, o chanceler russo, Sergei Lavrov, qualificou a resolução de "odiosa". "Essa é uma iniciativa que afetará os esforços de pôr fim à guerra na Síria e realizar uma conferência de paz", disse.

"É um texto tendencioso", denunciou o chanceler do Kremlin, dizendo estar surpreso com o fato de os EUA estarem patrocinando a resolução e, ao mesmo tempo, a conferência de paz sobre a Síria. Na ONU, diplomatas sírios disseram que a resolução é "hipócrita e perigosa".

O governo de Teerã pediu que nenhuma decisão seja tomada pela ONU antes da conferência de paz e afirmou que o texto aprovado ontem é "tendencioso". Pequim adotou a mesma posição. O governo da Índia optou pela abstenção, assim como países africanos.

Rússia e China atualmente não estão no conselho, que é rotativo, e portanto não votaram. A tarefa de defender Assad foi delegada por Moscou à Venezuela, que denunciou a "agenda de pressão de Washington".

O embaixador sírio, Faysal Khabbaz Hamoui, acusou a ONU de fazer "falsas alegações" e ser "irresponsável" diante da violência em Qusair. "Não houve massacre. A cidade está sendo aterrorizada por grupos jihadistas", disse.

Do outro lado, EUA, Kuwait, Turquia, Arábia Saudita e países europeus defenderam a condenação, alegando que, se nada for feito, o governo de Assad continuará a "impor sua força sobre a população".

Eileen Donahoe, embaixadora americana, acusou o regime de ser responsável por 183 mortes em Qusair, com a ajuda de combatentes externos. Os EUA também condenaram o envolvimento do Hezbollah e alertaram que "não há paz com Assad no poder". A embaixadora rebateu o argumento de Lavrov de que o texto de ontem mina a conferência de paz. "Não vejo inconsistência", declarou.

Em Paris, o coordenador das investigações da ONU sobre a violência na Síria, o brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, afirmou que a maioria dos rebeldes não quer a democracia. Ele afirmou que a principal responsabilidade pela violência recai sobre Assad, mas reforçou que os opositores sírios "não são anjos".

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