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Síria rejeita projeto turco de transição

Governo da Turquia propõe o vice sunita para substituir Assad e conduzir reformas democráticas

Andrei Netto, correspondente em Paris,

08 de outubro de 2012 | 20h55

PARIS - Cinco dias após o início dos bombardeios entre os dois países, o governo da Turquia propôs que o vice-presidente da Síria, o sunita Farouk al-Shareh, assuma um governo de transição, após a partida de Bashar Assad. A proposta foi reforçada em Estrasburgo, na França, onde o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu a negociação de uma saída política para a crise, que já dura 20 meses. À noite, o governo sírio ironizou a proposta.

A "oferta" foi feita pelo ministro das Relações Exteriores da Turquia, Ahmet Davutoglu. Shareh, vice-presidente desde 2006, substituiria Assad na chefia de Estado da Síria. Representante da comunidade sunita em um governo que se apoia na minoria alauita, Shareh foi envolvido diversas vezes em rumores de deserção e tem se mantido discreto durante o conflito, a ponto de ainda contar com crédito do Conselho Nacional Sírio (CNS), o órgão que reagrupa movimentos de oposição.

Informações não confirmadas dão conta de que ele estaria em prisão domiciliar por divergir do presidente. "Farouk al-Shareh é um homem racional e com consciência, que não tomou parte nos massacres na Síria", argumentou Davutoglu. "Ninguém conhece o sistema melhor do que ele."

Falando a uma plateia em Estrasburgo, na França, Ban Ki-moon não comentou abertamente a proposta da Turquia, mas pediu que ambos os lados do conflito abandonem as armas. Ele também pediu aos governos turco e sírio que encerrem as hostilidades. "A escalada do conflito na fronteira sírio-turca e o impacto da crise no Líbano são extremamente perigosos", afirmou o secretário-geral, que se encontra nesta terça-feira com o presidente da França, François Hollande, em Paris. Ban Ki-moon também pediu a Assad e "a outros dirigentes do mundo" que "escutem seus cidadãos antes que seja tarde demais", que "abandonem o uso da violência e se dirijam a uma solução política".

A reação do governo sírio veio ao longo do dia, quando o ministro da Informação, Omrane al-Zohbi, ironizou a proposta turca em entrevista à TV estatal de Damasco. "O que o ministro Davutoglu disse reflete o embaraço político e diplomático flagrantes", argumentou ele, acusando o país vizinho de conduzir uma política que "reduz o peso da Turquia" na região. "Nós não estamos mais na época do Império Otomano. Eu aconselho o governo turco a renunciar ao poder em favor de personalidades aceitáveis pelo povo turco."

Os governos da Turquia e da Síria, dois países separados por 900 quilômetros de fronteira, vivem o momento mais tenso desde o início da revolta popular em Deraa, em março de 2011. Assad acusa o país vizinho de fornecer armas aos rebeldes do Exército Sírio Livre (ELS) e de abrir as fronteiras para islamistas estrangeiros juntarem-se ao front de Alepo, onde insurgentes e exército lutam há dois meses.

Desde quarta-feira, quando cinco pessoas morreram em um bombardeio da Síria, forças armadas dos dois países trocam disparos de granadas de morteiros Um acordo teria sido firmado entre os dois governos para desmilitarizar uma faixa de 10 quilômetros de território sírio junto à fronteira, mas, diante da persistência dos ataques, o acordo parece fadado ao fracasso.

Nesta segunda-feira, 8, o presidente do CNS, Abdel Basset Sayda, ingressou em território Sírio pela primeira vez desde o início do conflito - em um sinal de dominação rebelde no norte do país. De acordo com o jornal Le Monde, Sayda teria se dirigido a Idlib, próximo a Alepo, onde teria participado de uma reunião com comandantes do Exército Sírio Livre. A informação foi confirmada por dois representantes do CNS, Georges Sabra e Fahad al-Masri, representantes do conselho em Paris. "Sua visita pretende estreitar os laços entre o ELS e o CNS", disse Sabra ao diário francês.  

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