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Síria volta à mira do Tribunal para o Líbano

Suspeita no caso do assassinato do premiê libanês Rafik Hariri, a Síria de Bashar Assad sempre deu a impressão de não se preocupar com os resultados da investigação internacional sobre o atentado. Quase uma década depois, porém, ressurge um renovado interesse da parte da Justiça internacional pelos atos do regime de Damasco.

ISSA GORAIEB, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2014 | 02h02

Foi o 14 de fevereiro de 2005 que liquidou um dos chefes políticos libaneses mais influentes na cena local. O atentado em Beirute teve o efeito de um terremoto cujos abalos ainda não terminaram. Um dos mais notáveis foi a retirada das tropas sírias estacionadas no Líbano havia cerca de 30 anos.

A ONU ordenou a abertura de uma investigação e, em seguida, a criação de um Tribunal Especial para o Líbano, instalado em Haia. Essa jurisdição, no entanto, foi acusada pelo regime sírio de ser um instrumento nas mãos dos EUA e de Israel. Ao longo dos anos, as investigações foram marcadas por períodos de atividade febril e outros de aparente calmaria.

Primeiro a assumir a condução das operações, o procurador alemão Detlev Mehlis atacou o topo da pirâmide criminosa, acusando o regime sírio. Vários oficiais de inteligência sírios foram interrogados. Quatro de seus colegas libaneses chegaram a ser presos, mas depois foram soltos por insuficiência de provas.

Os sucessores do procurador Mehlis, o belga Serge Brammertz e o canadense Daniel Bellemare, preferiram se concentrar nos executantes do atentado. Mandados de prisão foram expedidos contra cinco deles, militares de alto escalão no interior do Hezbollah, mas a milícia xiita, financiada pelo Irã e aliada da Síria, se recusou a entregá-los à Justiça.

Esses homens foram traídos pelo rastreamento eletrônico dos contatos que fizeram por seus telefones celulares durante o itinerário seguido pelo comboio de Hariri. De acordo com fontes próximas dos investigadores, a linha privada de Bashar Assad figurava entre esses contatos.

Feita a luz sobre quem e o como, parecia chegado o momento de o tribunal determinar o por quê do crime. Para isso, ele convocou personalidades políticas libanesas que viveram de muito perto a degradação fatal das relações entre o presidente sírio e o ex-chefe de governo libanês.

O deputado e ex-ministro Marwan Hamadé fez uma reconstituição da cena política, retraçando a trajetória de colisão entre Assad e Hariri: um presidente sírio decidido a consolidar seu domínio sobre o Líbano e um líder libanês esforçando-se para afrouxar o pesado abraço.

O conflito acirrou-se com a aproximação do fim, no outono de 2004, do mandato constitucional do presidente libanês Émile Lahoud, aliado da Síria. Damasco exigia que ele fosse mantido no cargo por mais três anos. Como Hariri se opôs, ele ameaçou destruir o Líbano sobre a sua cabeça e a de seu aliado, o líder druso Walid Jumblatt.

Esse testemunho será seguido de uma quinzena de outros, entre os quais o do próprio Jumblatt e do ex-premiê Fuad Siniora, que prometem serem igualmente incômodos para o dirigente sírio. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É JORNALISTA DO JORNAL 'L'ORIENT-LE JOUR', DE BEIRUTE, E COLUNISTA DO 'ESTADO'

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