Delil SOULEIMAN / AFP
Delil SOULEIMAN / AFP

Sírios contam drama de buscar água todo dia e acusam Turquia de cortar fornecimento

Moradores de zonas curdas e analistas afirmam que Ancara utiliza a água como ferramenta de pressão para obter mais energia elétrica

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2020 | 04h00

DAMASCO - Diante de sua residência no nordeste da Síria, Shija Majid conta que sua vida se tornou uma busca interminável por água potável, desde que a Turquia assumiu o controle de uma estação de bombeamento que fornece a água para sua cidade.

"Passo o tempo todo correndo atrás de carros-pipa", resume a mulher de 43 anos, que enfrenta a falta de água há vários meses em Hassake, cidade sob controle da administração semiautônoma curda. "Às vezes, tenho que mendigar água aos meus vizinhos", admite.

A preocupação aumentou com a detecção de 394 casos do novo coronavírus - com 26 mortes - nas zonas curdas, dezenas deles em Hassake. Os moradores da região pagam o preço de uma nova disputa entre forças turcas e curdas.

O Exército turco e seus aliados sírios ocupam desde 2019 uma faixa na fronteira de 120 km na Síria, incluindo a estação de Alluk, que fornece água potável para 460 mil pessoas.

Para as autoridades curdas e vários analistas, Ancara utiliza a água como ferramenta de pressão para obter mais energia elétrica, proporcionada pelos curdos, nas zonas conquistadas.

A Turquia nega. O Ministério turco da Defesa afirmou, no dia 6 de agosto, que a estação de Alluk estava em obras de manutenção e Hassake continuava recebendo água.

Os curdos responderam com várias fotos nas redes sociais e a hashtag: "A sede estrangula Hassake".

Alertas 

As organizações humanitárias advertiram muitas vezes sobre o uso da água com fins políticos, ou militares, em detrimento dos civis. A ONU fez um alerta em março, ao citar as graves consequências sanitárias e humanitárias.

Damasco também acusou Ancara de usar a água como uma "arma contra os civis sírios". Em agosto, as torneiras permaneceram secas durante 21 dias.

"Na maior parte do tempo tomamos banho com a água salgada dos poços para manter a higiene básica", afirma Shija, que mora com os sete filhos e dois netos.

Nas ruas estreitas, mulheres e crianças carregam baldes vazios à espera da água. 

Ancara fechou as válvulas pelo menos oito vezes nos últimos meses, segundo os curdos. "Ocupam nossas terras e agora cortam a nossa água", lamenta Saleh Fattah, de 45 anos.

As forças curdas lideraram a batalha contra o grupo extremista Estado Islâmico (EI) na Síria, ao lado das forças dos Estados Unidos, mas a Turquia as considera "terroristas" por suas relações com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que executa uma luta violenta no território turco desde os anos 1980.

As autoridades curdas afirmam que um acordo inicial após a última ofensiva turca no norte da Síria previa que Ancara continuasse fornecendo água para a região em troca do fornecimento de energia elétrica por parte dos curdos.

As pressões aumentaram para pedir mais energia elétrica, afirma Suzdar Ahmad, codiretor da Autoridade Hidráulica na administração curda.

Os curdos citam intermináveis ciclos de negociações sobre os cortes de água desde que os turcos ocuparam Ras al-Ain.

No dia 13 de agosto, os curdos decidiram interromper o fornecimento de energia elétrica. As duas partes negociaram um novo acordo, com a mediação da Rússia, que prevê o retorno à normalidade em Hassake, na próxima semana. / AFP 

 

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