Sírios criam formas de sobreviver à violência da guerra

Cenário: Damien Cave / NYT

O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2012 | 03h02

Nós os vimos agarrando-se aos pais em casa destruídas pela guerra em toda a Síria e os ouvimos chorar sob os tiroteios e a artilharia. Os recém-nascidos são apenas um sinal de que, à medida que o conflito se prolonga, os habitantes aprendem a sobreviver. Juntamente com os funerais, ainda há casamentos, embora num clima de culpa, com convidados que jamais comparecem, e nascimentos de crianças que vêm ao mundo em circunstâncias terríveis e, muitas vezes, recebem os nomes dos que já se foram.

Abu Mustafá batizou seu filho com o nome do irmão de sua esposa, morto em combate poucos dias antes. "Essa é a Síria. Mustafá morreu, mas um novo acaba de nascer", disse Abu, operário de uma fábrica. "A maioria dos recém-nascidos recebe o nome dos mortos. Conheço famílias que usaram o nome do pais, dos tios e de outros parentes mortos. Não importa quantos o regime mate, estaremos prontos a fazer filhos para substituí-los."

Muitos procuram refúgio do outro lado da fronteira, deixando num estado de suspensão sua existência anterior, mas outros vão levando com tristeza e medo de continuar vivendo. Eles consideram a guerra uma constante e procuram fazer seus planos de acordo com a nova situação. Mas há uma pergunta que paira acima de tudo. Como seguir com o desejo de viver tendo de enfrentar a guerra?

Ramez Abdullah queria evitar uma festa de casamento tradicional, mas a violência se agravou e as festas pareciam inadequadas. Pensou em economizar, mas a família da noiva quis festejar. "Eles disseram que era uma coisa que ocorria uma vez na vida." A data foi marcada levando em conta a guerra. "Pensamos em adiar, mas estávamos convencidos de que o futuro poderia ser pior. Agora, as pessoas podem vir. Talvez mais tarde elas não pudessem mais." No fim, os amigos de fora de Damasco não vieram e os poucos que foram, o criticaram por comemorar no meio do derramamento de sangue. A lua de mel planejada, uma viagem a Beirute, foi cancelada.

Cursar a faculdade também ficou mais difícil. Um estudante do quarto ano de medicina da Universidade de Damasco, que não quis se identificar, disse que as aulas continuaram, mas que os confrontos tornam mais difícil concentrar-se nos estudos. "Estudar durante o levante é muito difícil." As guerras que se prolongam obrigam as pessoas a limitarem a própria vida. Os sociólogos a definem como uma forma de introversão social, porque as pessoas precisam lidar com um risco muito maior estabelecendo prioridades. A taxa de natalidade, em geral, cai quando isto ocorre, mas na Síria a guerra prolongada é uma realidade nova. Consequentemente, os novos pais são obrigados a superar obstáculos que jamais imaginaram.

Abu Mustafá disse que no dia em que sua esposa deu à luz, a guerra acabava de chegar a seu bairro. Ela começou a sentir as contrações quando os rebeldes respondiam a um contra-ataque do governo. Era seu primeiro filho. "A maternidade estava lotada. Tentei ir para outros hospitais, mas não teve jeito. Fiquei louco, porque minha esposa começou a chorar e minha mãe pedia a Deus que a ajudasse. Gritei com os funcionários dos hospitais, que também gritaram comigo: 'É a guerra' ". No fim, encontrou uma parteira em uma aldeia fora de Alepo.

Vários outros descreveram partos angustiantes. Om Hussein mora em uma escola de Alepo cheia de refugiados. Sua filha, Dod, nasceu três meses atrás. "Desde que ela nasceu, vivemos com medo, aterrorizados", disse. "Acordamos à noite com o som das bombas e crianças chorando." Mas, segundo ela, sua filha ela tem uma razão para viver. "Ela é a esperança, uma bênção de Deus." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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