Sírios fogem da guerra civil e migram em massa à procura de asilo na Europa

A guerra civil na Síria, que já deixou 70 mil mortos, multiplicou o número de pedidos de asilo político por imigrantes sírios na Europa em 2012 e em 2013. Somando todas as nacionalidades, mais de 330 mil pedidos foram feitos nesse período nos 27 países do bloco. Os afegãos lideram a lista, com 8% do total, mas agora são seguidos pelos sírios, com 7%.

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2013 | 02h07

A demanda por asilo político é consequência direta do êxodo populacional, o maior do mundo no momento. Em dois anos de guerra civil, mais de 1 milhão de pessoas - 5% da população - deixaram a Síria, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). A preocupação, contudo, não para de crescer, porque o número de sírios em fuga segue em alta.

Só entre janeiro e março, mais de 400 mil sírios buscaram refúgio nos países vizinhos, no Norte da África e na Europa. Os efeitos são sentidos com mais clareza na Turquia, que já gastou US$ 600 milhões em 17 campos de refugiados, e no Líbano, país fronteiriço que recebe todos os dias 4,4 mil pessoas.

Além dos dois, Jordânia, Iraque e Egito já sofriam com o problema em larga escala. Agora é a Europa que começa a sentir os efeitos da tragédia humana na Síria. Números do Escritório Estatístico das Comunidades Europeias (Eurostat) indicam o aumento dos pedidos de asilo político e da imigração ilegal em 2012 e no primeiro trimestre deste ano.

Fuga. A Alemanha, com 64,5 mil pedidos, e a França, com 61,2 mil, são os mais solicitados. Na Suécia, país procurado por 44 mil sírios em 2012 - o terceiro na UE -, o ministro das Migrações, Tobias Billström, definiu a situação como "insustentável". Até aqui o país era o mais aberto do continente, aceitando todos os pedidos. O resultado foi um aumento de 450% no número de asilados nos últimos seis meses.

"Com 1 milhão de pessoas fugindo e milhões de outras se deslocando no território sírio, a Síria caminha para uma catástrofe", diz Antonio Guterres, comissário da ONU para os refugiados.

Basem Salem, advogado de 33 anos, é membro da nova comunidade síria refugiada na França. Em Alepo, no início de agosto de 2012, quando helicópteros disparavam contra rebeldes ou civis inocentes e tanques de Assad posicionavam-se na periferia, ele decidiu ir embora.

Depois de cruzar a fronteira turca com o pai - doente de câncer -, a mãe e um dos avós, chegou a Paris, onde teria refúgio. Desde então, planeja todos os dias retornar para libertar o país da ditadura. Além disso, sonha deixar a capital francesa, onde é mais um dos milhares de compatriotas em condições precárias.

Embora o drama seja muito mais claro nos campos de refugiados da Turquia e da Jordânia, ele não poupa os sírios que buscam abrigo na Europa. "Não temos nem sequer onde viver", diz Salem, instalado com toda a família em uma pequena sala de escritório sem janelas na periferia de Paris.

Assistência. Na Europa, conta o advogado, refugiados como ele são dependentes e precisam de ajuda permanente, a começar pela ajuda de um intérprete na hora de fazer documentos. "Não me sinto confortável na Europa", disse ele ao Estado. "Eu e minha família queremos retornar à Síria assim que a nossa área for liberada pela revolução. Não vamos esperar Assad cair."

O desejo é o mesmo do ator Saad Lostan, de 37 anos. Ex-morador de Damasco, ele vive em Paris desde outubro de 2011, depois que fugiu das ameaças de prisão feitas pelos serviços secretos em função de sua militância no Partido Comunista e de suas ligações com rebeldes na capital.

Depois de passar pela Jordânia, o ator migrou com a ajuda de um professor para a França, onde tenta se adaptar com a mulher ao cubículo em que vive, também na periferia de Paris. "A situação na Síria é cada dia mais crítica. A revolução que nós começamos já acabou e agora estamos em uma guerra civil, com o envolvimento de grupos islâmicos que são um perigo externo e real", disse. "É por isso que nós, refugiados, temos de retornar o mais rápido possível."

Depressão. Entre os sírios que chegam a Paris, os relatos são dramáticos. Antes de fugir de zonas de conflito, como Alepo, a periferia de Damasco ou Deir Ezzor, zonas ainda não liberadas pelos rebeldes, é preciso enfrentar a falta de luz, de água e de aquecimento nos dias mais frios. A ajuda humanitária, que leva alimentos e remédios à população, desaparece com frequência. Ao escaparem, muitos sofrem de depressão ou de sequelas físicas e psicológicas por torturas ou perseguições.

Ao chegarem à Europa, os que conseguem status de asilados políticos recebem de governos alguns benefícios, como acesso ao sistema de saúde e a pensões que, em geral, variam de € 300 a € 350 - em alguns casos chegam a € 450 -, valor insuficiente para viver em Paris ou mesmo em sua periferia. Poucos falam francês e, com isso, têm imensas dificuldades para encontrar trabalho, apesar da boa qualificação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.