Sírios lotam campos de refugiados

Só na terça-feira, 750 pessoas fugiram da guerra cruzando a fronteira com a Turquia, que diz ter gasto US$ 20 milhões em abrigos

LOURIVAL SANTANNA , ENVIADO ESPECIAL , ALTINOSU, TURQUIA, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2012 | 03h03

Uma chuva fria cai sobre o campo de refugiados de Bohsin, e o muezim chama para a oração do meio-dia. Não há muito mais que os homens do campo podem fazer. "Só comemos e dormimos", dizem quatro homens, enquanto fervem a água para o chá sobre uma resistência elétrica precariamente instalada em um tijolo. "Vivemos como animais."

Mesmo assim, centenas de pessoas cruzam a fronteira todas as noites, atravessando um campo minado e evitando os postos de controle e as patrulhas do Exército sírio.

Na terça-feira, foram 750 pessoas, totalizando 13.720, espalhados por 6 campos civis e 1 para mil militares e seus parentes, ao longo da fronteira com a Síria. De acordo com o governo turco, que gastou US$ 20 milhões para montar esses campos, eles estão todos lotados. Haveria muito mais refugiados, se não fossem os riscos e dificuldades da fuga das cidades cercadas e da travessia na fronteira.

A Turquia teme uma inundação de refugiados se o conflito se intensificar na região de Alepo, no norte da Síria, a cidade mais populosa do Oriente Médio, com 2,5 milhões de habitantes. No norte da Síria, vivem 5 milhões. Até o momento, o conflito tem sido mais intenso na Província de Idlib, no noroeste, onde vivem cerca de 140 mil pessoas.

Dos 2 mil moradores de Bohsin, 90% vêm de Jisr al-Shoughur, cidade duramente castigada pela ofensiva do Exército sírio, e o restante de Latakia.

Os refugiados sírios não podem trabalhar na Turquia. O país não concede status de refugiado a cidadãos de países situados do seu lado leste e sudeste - Afeganistão, Paquistão, Irã, Iraque e Síria -, pois crê que haveria uma invasão em massa de suas populações majoritariamente pobres. Os campos só podem ser visitados mediante autorização do Ministério das Relações Exteriores.

Os refugiados recebem três refeições por dia. O campo de Bohsin estava limpo quando o repórter do Estado esteve lá, das 10 às 14 horas de ontem. Banheiros químicos e duchas estão instalados ao redor. Há um campo de futebol e uma quadra de vôlei e outra de basquete. As mulheres têm cursos de artesanato.

Para as crianças e adolescentes - um terço dos moradores -, há salas com computadores, além de creches e salas de aula. Os professores falam turco e árabe, como boa parte da população no sudeste da Turquia. Os moradores queixam-se que as aulas são só em turco.

Os que têm telefone fixo em casa recebem notícias de suas famílias. Aqueles cujos parentes só têm celulares perderam o contato, pois o serviço das duas operadoras de celular no noroeste foi interrompido. Um homem com três netos afirma que seu filho, pai das crianças, foi morto há dois dias em Jisr al-Shoughur.

Um empresário da cidade diz que membros das forças de segurança saquearam sua galeria e sua loja, invadiram sua casa e rasgaram as escrituras de suas propriedades. Todos pedem para não se identificar, com medo de represálias contra suas famílias na Síria.

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