Sírios lotam posto de fronteira tentando escapar para o Líbano

Famílias chegam a aguardar 36 horas em El-Masnah para deixar o território sírio; regime pede para que fiquem

Lourival Sant’Anna, enviado especial de O Estado de S.Paulo,

31 de agosto de 2013 | 21h25

EL-MASNAH, LÍBANO - Eles passam de todas as formas: em ônibus, vans, carros particulares - privilégio só da classe média e alta na Síria - e até mesmo a pé. No posto de fronteira de El-Masnah, a principal passagem entre a Síria e o Líbano, a 35 km de Damasco, o fluxo de refugiados é contínuo. Eles contam que filas se formam do lado sírio da fronteira. Um grupo afirma que esperou 36 horas, da manhã de quinta até a tarde de sexta, até a polícia de fronteira libanesa autorizar sua passagem.

 

Eles dizem que o governo sírio não os impede de deixar o país, mas pede que fiquem, e espalhou a informação de que os bombardeios americanos durariam apenas dois ou três dias, atingiriam alvos militares específicos e, depois, "Genebra virá", numa referência aos esforços de negociação da ONU para uma saída política para o conflito. A perspectiva do ataque americano veio somar-se aos combates entre as forças leais ao governo e a oposição, que segundo moradores de Damasco se intensificaram nos últimos dias.

 

O eletricista Mohamed Hassan, de 46 anos, atravessou a fronteira a pé, com sua mulher e um casal de filhos pequenos. "Desde o início do conflito, não consigo mais ganhar nosso sustento", afirmou Hassan.

 

"Tanto o governo quanto os rebeldes são responsáveis pela situação", criticou o eletricista. "Os dois lados atacam áreas onde só estão civis."

 

Ele e outros moradores de Damasco disseram que agora não existem mais áreas seguras na capital. "Há bombardeio por toda a parte", descreveu um motorista de táxi de 25 anos, que veio em um ônibus pequeno, com cerca de 20 pessoas. "O governo está atacando a população", afirmou o taxista, sob gestos de aprovação dos outros passageiros do ônibus, que moram em áreas controladas pelos rebeldes, na periferia de Damasco.

 

Eles disseram que os ataques com armas químicas prosseguem, ainda que em menor escala, e pessoas com dificuldade de respirar depois de inalar gases tóxicos continuam chegando aos hospitais, já repletos de pacientes. Um vídeo exibido na sexta-feira pela CNN mostra adolescentes com queimaduras no corpo, provocadas na segunda-feira por uma substância invisível, segundo relatos, no vilarejo de Orroum al-Kubra, na estrada entre Alepo e Idlib, no norte da Síria. O governo sírio nega que tenha usado armas químicas, e acusa os rebeldes.

 

Bombardeios. Os moradores da periferia de Damasco afirmaram que aviões do governo estão "bombardeando toda a cidade", e tanques também efetuam disparos. Os rebeldes reagem com foguetes e tiros de canhão e de artilharia. "A maioria da população de Damasco está indo embora", afirmaram eles. Regiões do centro da cidade que costumavam estar a salvo agora são atingidas pelos foguetes dos rebeldes, disseram eles.

 

Do lado libanês, os refugiados que não vieram em seus carros particulares embarcam em ônibus e vans e seguem para várias partes do país. No bairro de Hamra, em Beirute, crianças sírias pedem esmolas nas ruas.

 

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) oferece ajuda a 716 mil sírios no Líbano, mas, segundo o governo libanês, o número de sírios no país já passa de 1 milhão. Cerca de 13 mil refugiados atravessam a fronteira por dia, segundo o Diretório de Segurança Geral, o serviço secreto interno libanês. O presidente do Líbano, Michel Suleiman, anunciou que vai levantar a questão dos refugiados sírios na Assembleia-Geral da ONU, que começa no dia 17 em Nova York.

 

De acordo com o Acnur, há 1,9 milhão de refugiados sírios na região, mais da metade crianças, e 740 mil com idade abaixo de 11 anos. No interior da Síria, 4,5 milhões de pessoas tiveram de sair de suas casas.

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