Sírios que escapam da guerra formam favelas no Líbano

Como Beirute proíbe campos formais de refugiados, barracos multiplicam-se em cidades como de Kab Elias, no centro do país

Lourival Sant´Anna, enviado especial a Kab Elias, Líbano,

02 Setembro 2013 | 19h17

KAB ELIAS, LÍBANO - Quem chega à cidade de Kab Elias, no Vale do Bekaa, perto da fronteira com a Síria, e pergunta onde fica o campo de refugiados, recebe a resposta de que isso não existe no Líbano. De fato, o governo libanês não permite a construção de campos de refugiados sírios, como os que existem na Turquia e na Jordânia. Em vez disso, cresce uma favela na periferia da cidade, já com cerca de 300 barracos, e mais sendo construídos todos os dias, para abrigar famílias da Síria.

Como não é um campo de refugiados formal - apesar de haver 1 milhão de refugiados sírios no país, segundo o governo libanês, a maioria em casas -, a ajuda humanitária é irregular. Falta comida e água lamacenta sai de poços artesianos próximos de buracos cavados na terra para servir de banheiro. Mesmo tendo de construir seus barracos nessas condições, os sírios ainda pagam aluguel pelo terreno. Uma mulher que veio há um ano de Rakka, no norte da Síria, conta que paga US$ 400 por seis meses de aluguel para ocupar o terreno de seu barraco de 12 metros por 3,5.

Uma mulher de 22 anos, que chegou há três meses de Alepo com o marido, a filha de 2 anos e o filho de 9 meses, disse que recebeu um cupom, que ela acredita ter sido dado pela ONU, e trocou no supermercado por comida, que durou 15 dias. Sua casa em Alepo foi destruída. O marido dela, taxista de 25 anos, dormia no meio da tarde de ontem no barraco, como muitos homens na favela, que desistiram de procurar emprego.

Outra mulher de uma família de 11 pessoas, incluindo a filha casada e o marido, diz que chegaram há 2 meses e meio e não receberam nenhuma ajuda. A família teve de desembolsar 700 mil libras libanesas (US$ 466) por um ano de aluguel do terreno para construir seu barraco.

Noutro barraco, moram 4 mulheres e seus 10 filhos, entre eles um bebê de 15 dias. Os maridos ficaram na Síria. Um deles está preso em Alepo. Elas contam que entraram por Trípoli, no nordeste do Líbano, e lhes disseram que teriam de receber a ajuda lá. Trípoli fica a 135 quilômetros e elas não têm como ir buscar os cupons. Elas dizem que a prefeitura ajudou algumas vezes. No mais, tentam trabalhar e pedir esmola. Às vezes, passam fome. De acordo com um ativista sírio que está organizando uma escola para a favela, há 240 crianças nela, em idade de alfabetização.

Os refugiados preferem não dar seus nomes, assustados com a perseguição que podem sofrer. São muito econômicos em considerações políticas. Em geral dizem apenas que querem "continuar vivos" e a Síria "tenha segurança para voltarem para casa" - em muitos casos ela foi destruída. Apenas um rapaz disse, sob a aprovação de amigos e familiares, que, "se for para os EUA atacarem, que ataquem para valer, para liquidar o assunto".

Um homem de Deraa, que chegou há pouco mais de um ano, apresentou-se como "revolucionário" e disse que ficou preso durante quatro meses numa cela do serviço de segurança da Força Aérea, um dos mais temidos do país. Ele afirma que não participou de nenhuma manifestação, e foram buscá-lo em casa, porque alguém o delatou por suas opiniões contra o governo. "Bebíamos a urina uns dos outros na cela, porque não nos davam água", lembra ele. "Está vendo esses tênis? Enfiaram um dos pés na minha boca."

 
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