Sírios relatam ataque com armas químicas

Moradores do subúrbio de Damasco descrevem a amigos brasileiros os horrores do gás sarin

ROBERTO GODOY, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2013 | 02h00

Os primos Atif Niazi e Wajid Rana, nomes fictícios de dois farmacêuticos sírios, estavam jantando na casa de Atif, em Daraya, distrito próximo da capital, Damasco. Comiam shawarma, um churrasco em que a carne é assada em fatias, enquanto conversavam sobre o combate entre os rebeldes e a tropa do governo, interrompido já fazia 72 horas, 3 dias inteiros. Foi então que ouviram três explosões abafadas.

Era a madrugada de 25 de abril, uma quinta-feira.

Pelo telefone satelital, falando com amigos brasileiros do interior de São Paulo e interrompendo a chamada a cada três minutos para evitar o rastreamento, eles contam que viram pelas janelas, a cerca de três quilômetros, uma espécie de neblina fina, azulada, uma linha flutuando sobre uma área estimada em 300 ou 400 metros. Logo em seguida, houve uma nova série de detonações - sem o rugido agudo da chegada dos disparos de artilharia, sem o uivo dos morteiros. Militares dissidentes disseram aos dois que, possivelmente, o ataque tenha sido feito por foguetes de 70 milímetros lançados por helicópteros.

O fato é que os efeitos do bombardeio, certamente executado com armas químicas, foram devastadores, garantem Wajid e Atif. No pronto-socorro de Daraya, onde ambos são voluntários, foram atendidas cerca de 250 pessoas, 130 das quais encaminhadas para o hospital central. Todas apresentavam os mesmos sintomas: vômito incontrolável, olhos lacrimejantes, sensação de queimadura na pele, dificuldades respiratórias. Nos casos mais graves, as vítimas sofreram convulsões e entraram em choque. Um dia depois, em Washington, o Grupo de Apoio à Síria revelaria que "centenas de pessoas foram envenenadas com agentes químicos de emprego militar nos arredores de Damasco.

Atif relata que, em outra operação do tipo, contra os rebeldes em Khan al-Assar, morreram 22 civis intoxicados. Não havia o antídoto, a atropina, na rede de atendimento público. "O uso dos arsenais químicos pela tropa de Assad é visto, até agora, como um teste duplo. Ele mede os resultados táticos desse recurso, enquanto verifica os limites políticos do uso de armas de destruição em massa", disse ao Senado o ex-consultor da Casa Branca, Gary Samore.

Citando relatórios das principais organizações de inteligência de EUA, França e Grã-Bretanha, Samore revelou que os "shaibas", membros da temível força de elite do governo, treinaram a utilização do armamento químico. "Esse grupo, parte militar, parte policial, prefere o agente sarin, neurotóxico que, após disperso, não deixa resíduos, mata por aspiração ou contato com a pele", disse Samore. O comando estratégico sírio, segundo ele, mantém ainda estoques do VX2, um gás ainda mais potente.

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