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Sissi, o tirano substituto

Mais uma façanha daquelas “primaveras árabes” que, a partir de 2011, derrubaram os tiranos da Tunísia, Egito e Líbia para colocar democracias no seu lugar. Um pouco como, alguns anos antes, o presidente americano George W. Bush havia tido a ideia de cortar o pescoço do tirano Saddam Hussein para que os iraquianos pudessem, enfim, desfrutar das doçuras da democracia e o Iraque se tornasse o país da alegria de viver. 

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

23 de maio de 2015 | 03h00

No Egito, foi o Hosni Mubarak, homem enérgico, que mordeu o pó sob aplausos nas ruas. A democracia havia derrubado o horror totalitário. Depois vieram muitos episódios: a ascensão da Irmandade Muçulmana e a eleição para presidente de seu líder, Mohammed Morsi. Em seguida, um segundo golpe de Estado. O irmão muçulmano Morsi foi destronado pelo marechal Abdel Fattah al-Sisi. 

Depois disso o Egito marchou para a direita. Aliás, se não fosse para a direita, Sisi o recolocaria no caminho certo. Matando. No sábado passado, por exemplo, os tribunais egípcios condenaram o ex-presidente Morsi à morte, além de dezenas de seus seguidores. Assim, o “tirano” Mubarak foi substituído, graças à revolta dos democratas, por um “mais tirano do que ele”. Jamais o sangue havia corrido tão profusamente no Egito. Em poucos meses, sob o comando de Sisi, 1.400 manifestantes foram mortos e 15 mil partidários da Irmandade Muçulmana, presos. 

É bem verdade que Sisi também golpeou o antigo tirano, Mubarak , que os democratas haviam derrubado. Ele foi condenado a 3 anos de prisão por corrupção na semana passada. Enquanto aguarda para cumprir suas várias condenações, mora num luxuoso hospital militar perto do Cairo. 

Essas folias indignaram muitas “pessoas virtuosas”. Elas calcularam que os EUA seriam contra essas condenações em massa, mas Washington acaba de restabelecer sua ajuda ao Egito (US$ 1,5 bilhão por ano). Na Turquia, o presidente Recep Tayyip Erdogan, islamista moderado que aboliu recentemente a pena de morte no seu país, disse que o Egito de Sisi começa a parecer o “Egito antigo”. 

E a França, a especialista universal em direitos humanos? Até agora, não se ouviu nada de sua parte. Várias hipóteses: a França procura ganhar tempo. Não é porque alguém envia 120 pessoas à morte que se deve falar sem pensar. Segunda possibilidade: sendo a França ela mesma um dos primeiros alvos dos terroristas islâmicos, ela compartilha as análises de Sisi. Terceira hipótese: a França está negociando com o Egito a venda de aviões Rafale. Ora, não se pode fazer tudo ao mesmo tempo, vender aviões e dar lições de moral públicas. Cada coisa a seu tempo. 

Mas talvez um comunicado do Palácio do Eliseu seja publicado a qualquer momento. Nunca se sabe. 

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris/ tradução de Celso Paciornik 

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