Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

Sistema de saúde é tão ruim que inibe filas

Falta de remédios e reagentes em laboratórios impede diagnóstico; sem ele, não há tratamento

Cristiano Dias, enviado especial / Caracas, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2017 | 05h00

CARACAS - Ele entrou no trem na estação Colegio de Ingenieros, Linha 1 do metrô de Caracas. Disse que se chamava Rafael, simplesmente. Que não tinha nada para vender, mas precisava de 7.400 bolívares (menos de R$ 10) para comprar uma caixa de amoxicilina. Sua orelha já estava pela metade, segundo ele, estraçalhada por uma bactéria que lhe atacava o estômago. Ganhou um trocado aqui, outro ali. Com o sangue lhe escorrendo pelo pescoço, ajoelhou-se e chorou. Pediu um milagre. Já de pé, levantou a camisa e mostrou a barriga em carne viva.

O drama de Rafael é reflexo do colapso do sistema de saúde venezuelano. O nível de indigência da maior parte da população aumenta a suspeita de que o governo do presidente Nicolás Maduro se mantenha amparado em algum milagre da Virgem de Coromoto, padroeira de Caracas. 

Na capital, médicos, dentistas e profissionais de saúde consultados pelo Estado relatam um cenário de terra arrasada, de incapacidade de tratar doenças mais simples. Em muitos casos, pacientes nem sequer sabem de que estão morrendo, pois não há mais reagentes e equipamentos laboratoriais para obter um diagnóstico confiável.

“Existem falhas funcionais graves nos hospitais do país”, diz Freddy Ceballos, presidente da Federação Farmacêutica Venezuelana. Segundo ele, em alguns lugares já se fala em 95% de escassez de remédios. “Não há mais insulina, anticonvulsivos e analgésicos. Desapareceu também a maioria dos antibióticos. Não há mais medicamentos para hipertensão, aids e câncer. A Venezuela vive uma crise humana.”

Nos últimos cinco anos, 16 mil profissionais de saúde foram embora, a maioria médicos especialistas, enfermeiros e farmacêuticos. Os que ficaram recorrem ao improviso para aliviar a dor dos pacientes. Ceballos conta que é comum receitar clara de ovo para queimadura, pois não há mais pomadas no mercado. 

Na falta de cabos de bisturi, segundo ele, muitas cirurgias estão sendo feitas só com as lâminas. Em alguns hospitais, a ordem é reutilizar sondas de drenagem e trocar a dose de determinados remédios por outros parecidos que possam ser encontrados nas farmácias. “Já escutei de colegas que usaram linha de costura para suturar paciente”, disse.

No Hospital das Clínicas de Caracas, pacientes com fraturas graves aguardam cirurgia na cama com a perna içada por uma faixa. Como não há equipamento adequado, os médicos usam como contrapeso galões de água para mantê-la esticada no leito. “É um método usado na 2.ª Guerra”, afirmou Ceballos.

Na falta de stents (tubos metálicos usados para liberar o fluxo sanguíneo), as angioplastias estão sendo desmarcadas e o paciente vem sendo tratado com estreptoquinase, medicamento usado contra trombose. “Está longe do ideal. Se o caso é grave, há risco grande de arritmia ou parada cardíaca”, afirma o farmacêutico. Quando o problema é mais simples, os médicos simplesmente não fazem nada. Em caso de aftas, herpes, intoxicações alimentares ou cólicas, a recomendação é mandar de volta para casa e esperar passar.

Os profissionais venezuelanos são unânimes em dizer que o fracasso do sistema de saúde do país há algum tempo extrapolou a questão do tratamento. Como sinal da deterioração total das condições de trabalho, a míngua já afeta o diagnóstico.

Judith León é presidente da Federação de Colégios de Bioanalistas da Venezuela. De acordo com ela, 70% dos laboratórios do país fecharam as portas por falta de matéria-prima e equipamentos. “Não há mais reagentes. Quem quiser descobrir sua doença, tem de correr os laboratórios particulares de Caracas, gastar muito dinheiro e torcer para encontrar um que faça o exame”, disse Judith. “Se alguém chega no hospital com febre, por exemplo, não há como saber se é bacteriana ou viral.”

Ela conta que os tubos de ensaio descartáveis, usados para a coleta de sangue, tornaram-se artigo de luxo na Venezuela. Diante da nova rotina, os laboratórios voltaram a usar material de vidro, que estava trancafiado em depósitos desde os anos 80. 

“O problema é que os tubos de ensaio de vidro têm de ser lavados e há mais risco de contaminação por reação com algum elemento. O resultado não é confiável”, afirmou Judith. Ainda de acordo com ela, não há gente suficiente para fazer o trabalho de assepsia e nem tubos para dar conta da demanda. “Os laboratórios da Venezuela retrocederam pelo menos 40 anos.”

A escassez afetou até a dentadura dos venezuelanos. “É muito difícil encontrar uma prótese dentária no país”, disse Pablo Quintero Villamizar, presidente do Congresso de Odontologia da Venezuela. “Falta tudo: anestesia, implantes, resinas e até algodão.” Segundo ele, é comum os dentistas lavarem as luvas, que deveriam ser descartáveis. “Quando não conseguimos material no mercado negro, temos de cancelar as consultas”, contou Villamizar. “Quando dá, perguntamos ao paciente e fazemos o tratamento sem anestesia.” 

Para Judith, a situação é tão ruim que a figura do paciente que morre na fila de um hospital – símbolo da falência do sistema de saúde em outros países da região – deixou de existir na Venezuela. “Passamos deste ponto há alguns anos. As filas diminuíram. Com a escassez, as pessoas chegam aos hospitais e são mandadas de volta para morrer em casa.”

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