Sistema imperfeito

A campanha presidencial americana tem sido marcada pela estonteante adesão ao perfil rebelde de Donald Trump e por uma expressiva rejeição a Hillary Clinton – que mesmo assim lidera as primárias do Partido Democrata e a maior parte das pesquisas de intenção de voto. As duas tendências têm a mesma causa: a hostilidade em relação à “forma de se fazer política em Washington”. É uma queixa vaga e difusa, associada ao sentimento igualmente impreciso de perda de poder aquisitivo.

Lourival Sant'anna*, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2016 | 04h35

Dos quatro principais aspirantes, apenas Hillary pertence ao establishment, observa Harold Trinkunas, da Brookings Institution, em Washington. Seu sobrenome está associado à máquina do Partido Democrata. O democrata Bernie Sanders, senador por Vermont, é o primeiro desde os anos 20 a disputar as primárias com uma inspiração socialista. O senador texano Ted Cruz representa uma base evangélica ultraconservadora e paroquial, entrincheirada contra um mundo externo não branco e não protestante. 

Os dados mostram uma estagnação na renda média dos trabalhadores americanos nos últimos 50 anos e aumento da disparidade entre ricos e pobres. Os muito ricos ficaram ainda mais ricos. Combinada com a crise de 2008 e as políticas do governo Obama de resgate dos bancos e das montadoras de automóveis, essa realidade cria uma percepção geral de que a política em Washington – tanto o governo quanto o Congresso – está corrompida por lobbies poderosos, em detrimento dos interesses da população. 

Desinteresse. Dos 226 milhões de americanos aptos a votar, 153 milhões se registraram como eleitores nas últimas eleições. Desses, apenas 130 milhões foram votar. A votação é realizada em dia de semana e muitos eleitores têm dificuldade de deixar o trabalho para ir às urnas. A lei permite votar pelo correio até uma semana antes, mas a regulação é estadual – e alguns Estados, dominados pelo Partido Republicano, têm dificultado a votação prévia e o registro de última hora, o que prejudica os democratas, que atraem o voto dos mais pobres. Mudanças nos mapas dos distritos eleitorais são manobras para favorecer o partido dominante nos legislativos estaduais nas eleições para deputados federais.

A escolha do presidente é drasticamente afunilada pelas primárias dos partidos. Estão registrados para votar nas primárias cerca de 20 milhões de eleitores de cada partido, perfazendo um total de 40 milhões – ou seja, 18% dos americanos aptos a votar definem os dois candidatos a presidente. 

Este ano, as primárias, sobretudo republicanas, estão muito disputadas, e a maior parte dos Estados terá participado antes de se definirem os candidatos. Em outras eleições, os candidatos obtiveram o número necessário de delegados no meio da disputa – e um número ainda mais reduzido de eleitores escolheu por todos.

Causa própria. Mark Penn, estrategista-chefe da campanha de Hillary em 2008, observa que os políticos não têm interesse em mudar esse quadro, porque é mais fácil fisgar os votos de um número pequeno de eleitores. A ampliação da disputa a tornaria mais cara e imprevisível. Os políticos não se preocupam em conquistar eleitores indecisos, mas em consolidar o apoio de seus redutos. 

A consequência é que as campanhas – e os governos e atuações no Legislativo – ficam dominadas por demandas de pequenos grupos de eleitores. Daí a sensação de exclusão da grande maioria. Como a política é polarizada entre dois partidos, a tática mais eficaz é desqualificar o opositor. Isso leva ao rebaixamento do nível da campanha.

“Há uma frustração muito abrangente com o processo – alguns o veem como manipulado, enquanto muitos percebem que não há uma conspiração ou plano centralizado, apenas uma mistura de regras, hábitos e práticas que se acumularam ao longo do tempo, distorcendo as coisas e levando a esse processo maluco que muitos americanos não gostam ou nem entendem”, descreve Tim Ridout, pesquisador do German Marshall Fund, de Washington.

Como em tantos outros aspectos, os problemas americanos só revelam o quanto os Estados Unidos estão à frente do Brasil. A polarização é resultado de um sistema desenhado para evitar a fragmentação partidária que transforma o Congresso brasileiro em balcão de negócios. 

As manobras nos mapas eleitorais só são possíveis porque o voto é distrital, evitando o encarecimento das campanhas para deputado, que disputam em Estados inteiros e tornam-se mais expostos à corrupção. As primárias são a democratização das escolhas dos candidatos, quando no Brasil a decisão é da cúpula. O sistema americano precisa ser aperfeiçoado; o brasileiro, totalmente redesenhado.

* LOURIVAL SANT’ANNA ESCREVE AOS DOMINGOS

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