Situação crítica leva EUA a se envolver em crise

Reticência de governo Obama em atuar na região muda após uma semana de guerra e de diplomacia em Washington e na ONU

, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2011 | 00h00

Após duas semanas descartando a perspectiva de uma intervenção militar na Líbia, o governo de Barack Obama está se envolvendo numa terceira guerra num país muçulmano - algo que o presidente, que passou a metade de seu mandato consertando o relacionamento dos EUA com o Islã, esperava evitar.

A virada do governo do ceticismo ao apoio à intervenção militar na Líbia ocorreu depois de uma semana frenética de guerra e diplomacia em Washington e Paris, na ONU e dentro da Líbia.

As forças rebeldes da Líbia se dissolveram mais rapidamente do que autoridades do governo haviam previsto. Além disso, o apelo da Liga Árabe por uma operação militar liderada pela ONU na Líbia deu impulso à busca pelo governo americano de um respaldo internacional.

No interior de um governo criticado por sua atitude cautelosa ante as transformações vertiginosas no Oriente Médio, o ponto de virada veio na terça-feira à noite quando Obama reuniu a cúpula de sua equipe de segurança nacional na Sala de Situação. Depois de uma reunião de duas horas, Obama orientou sua embaixadora na ONU, Susan Rice, a buscar aprovação do Conselho de Segurança a uma resolução que autorizaria uma intervenção militar além de uma zona de exclusão aérea após concluir que uma missão limitada como essa não seria suficiente para conter as forças de Muamar Kadafi.

A decisão de Obama de participar em operações militares representa uma vitória de uma facção de intervencionistas liberais no governo. Alguns deles ficaram marcados pela inércia americana em Ruanda e nos Bálcãs nos anos 90 e viram no conflito civil da Líbia um imperativo moral para impedir matanças em massa. Entre os mais céticos sobre um novo envolvimento militar das forças já sobrecarregadas dos EUA estavam o secretário de Defesa, Robert Gates, o Consultor de Segurança Nacional, Thomas Donilon, e seu vice, Denis McDonough, que são conhecidos no governo como pragmáticos que protegem ao extremo o presidente.

Inicialmente cautelosa sobre uma intervenção militar, a secretária de Estado Hillary Clinton mudou de opinião após viajar para a Europa e o Norte da África na última semana, buscando apoio internacional de primeira mão e disposição de participar em semelhante missão. Mas dentro dos altos escalões da administração havia pouco apoio a uma zona de exclusão aérea, vista por alguns como pouco mais que um passo simbólico num conflito travado, sobretudo, no solo.

Antes da votação, a perspectiva de conseguir uma resolução da ONU para uma intervenção militar parecia quase impossível. Mas quando Hillary chegou a Paris dois dias depois para se reunir com os ministros das Relações Exteriores dos países do Grupo dos 8 mais a Rússia, ela notou um crescimento do apoio.

Nos dias que antecederam a votação da Liga Árabe, Grã-Bretanha e França trabalharam numa resolução que autorizaria uma zona de exclusão aérea. Os EUA, segundo um diplomata do CS, pareceram "meios distantes". Na terça-feira, Susan Rice ainda parecia tatear o terreno numa sessão fechada do CS, mas no dia seguinte, indicou que os EUA estavam preparados para agir.

Na votação de quinta-feira, ao menos dois governos árabes pareceram prontos para participar na aplicação da zona de exclusão aérea. O apoio árabe cresceu, Rússia e China acharam mais difícil vetar a resolução. Ambos os países se abstiveram de votar, assim como a Alemanha, Índia e Brasil. / THE WASHINGTON POST / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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