REUTERS/Rafael Marchante
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Snowden completa cinco anos na Rússia com o futuro incerto

Ex-funcionário da NSA quase não conversa com imprensa e leva estilo de vida discreto e recluso ao lado da namorada, Lindsay, enquanto ganha a vida com videoconferências sobre segurança informática; advogado diz que ele cogita pedir passaporte russo

O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2018 | 14h56

MOSCOU - Edward Snowden, o homem que revelou o sistema de espionagem em massa dos EUA, completa cinco anos de asilo na Rússia, sem que haja muitas informações devido à sua vida discreta e reclusa.

Em 1º de agosto de 2013, o ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional (NSA) recebeu asilo político na Rússia e um ano mais tarde obteve uma permissão de residência temporária.

O também ex-analista da CIA, que há dias completou 35 anos, assegurou em suas contadas entrevistas que leva uma "vida normal", apesar de sua condição de foragido da Justiça dos Estados Unidos.

Em julho, o ex-analista falou com o jornal suíço "Tages-Anzeiger", sem que haja informações sobre o local onde aconteceu a entrevista.

A publicação ressalta que foi extremamente difícil contactar Snowden porque não possui telefone celular e se comunica com o mundo exterior só através de seus advogados, por isso que as negociações para conseguir a entrevista duraram meses.

Snowden contou ao jornal suíço que sua vida na Rússia, onde tem permissão de residência válida até 2020, não é diferente da de milhões de pessoas: aluga um apartamento, anda de metrô, vive com sua namorada, Lindsay, que se mudou dos EUA para a Rússia para ficar com ele, e ganha a vida dando videoconferências sobre segurança informática.

Snowden, que há anos se transformou em um "troféu" incômodo para o Kremlin, não duvidou em voltar a criticar abertamente o governo russo e o presidente Vladimir Putin.

O ex-analista da inteligência americano disparou, em particular, contra a corrupção nas altas esferas do poder na Rússia, que, segundo disse, é o problema deste país e não de sua gente, que compreende a situação, mas se vê incapaz de mudá-la.

Snowden negou de novo estar colaborando com os serviços secretos da Rússia, mas admitiu que estes tentaram recrutá-lo durante sua chegada ao país.

Apesar destas e de outras declarações pouco amáveis de Snowden sobre o governo russo, Moscou descarta categoricamente a possibilidade de entregá-lo aos EUA.

Há duas semanas, o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, tachou de "absolutamente inaceitável" a devolução de Snowden. "Este assunto está fora de discussão", assegurou.

Na mesma linha se expressou anteriormente o ministro de Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, que descartou que o destino do ex-analista da CIA fosse tema de discussão entre os presidentes da Rússia e dos EUA durante a primeira cúpula bilateral em 15 de julho, em Helsinque.

"Respeitamos seus direitos e não podemos expulsá-los contra sua vontade", disse Lavrov com relação ao ex-agente americano exilado na Rússia.

Funcionários do alto escalão do governo russo quase não mencionaram Snowden nos últimos anos. Putin, em suas escassas declarações sobre o ex-agente - cuja acolhida na Rússia deu lugar a uma crise diplomática entre Moscou e Washington - negou a entrega dele aos EUA, sem ocultar ao mesmo tempo, o desacordo com seu 'modus operandi'.

"Se não gostava de algo em seu trabalho, simplesmente tinha que ter se demitido, mas foi além", disse em uma ocasião Putin, antigo agente da KGB, ao ser perguntado se Snowden agiu corretamente.

Muito menos diplomático se mostrou o agora presidente dos EUA, Donald Trump, que não duvidou em qualificar Snowden de "traidor", que causou um "enorme dano" aos país. O então empresário acrescentou que quando o país "era respeitado e forte, os espiões eram executados".

Segundo a imprensa, Snowden, que se viu "preso" na Rússia depois que os EUA anularam o seu passaporte, não abandonou a esperança de conseguir asilo em outros países. No entanto, até agora, nenhum Estado decidiu acolher ao ex-agente americano.

Cinco anos depois de chegar à Rússia, o futuro de Snowden continua mais incerto que nunca. O seu advogado, Anatoli Kucherena, chegou a afirmar que poderia pedir passaporte russo se decidir finalmente prolongar sua estadia no país, já que existe "base legal" para isso.

Alguns analistas, no entanto, opinam que perante o incômodo que representa Snowden para as autoridades russas, tarde ou cedo poderiam optar por que busque outro refúgio entre seus países aliados.

Enquanto isso, o quinto aniversário do asilo de Snowden na Rússia passa praticamente despercebido, da mesma forma que a vida do próprio analista de inteligência. / EFE

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