Snowden e a ajuda à ciberespionagem dos chineses

Denúncia feita por ex-agente de inteligência dá a Pequim o pretexto ideal para responder a acusações dos EUA

Adam Taylor*, The Washington Post/O Estado de S.Paulo

21 Maio 2014 | 02h02

Na segunda-feira, o Departamento de Justiça dos EUA acusou cinco membros da Unidade 61.398 do Exército chinês de espionagem econômica cibernética contra empresas americanas. Trata-se de um ato sem precedentes contra um governo estrangeiro e a resposta das autoridades chinesas foi furiosa. Pouco depois de as acusações serem anunciadas, o Ministério das Relações Exteriores da China divulgou comunicado repudiando as acusações, afirmando que elas são "simplesmente fictícias" e "totalmente absurdas".

No entanto, além dos desmentidos, a defesa chinesa revela um detalhe importante, ou seja, a perspectiva diferente da China no tocante às atividades da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês), reveladas no ano passado por Edward Snowden.

É um exemplo que ilustra como Pequim pode justificar sua espionagem cibernética como algo sem importância se comparado às atividades do serviço de inteligência dos Estados Unidos.

As acusações de espionagem cibernética conduzida pelo Estado chinês já tinham sido manchete havia pouco mais de um ano, quando a empresa de segurança americana Mandiant publicou um estudo de 60 páginas que ligava o Exército da China a ciberataques contra empresas nos EUA. Na ocasião, a chancelaria chinesa negou qualquer envolvimento oficial no caso, acrescentando que "ataques de hackers são transnacionais e anônimos".

Alguns meses depois, os EUA foram abalados por suas próprias acusações envolvendo a espionagem online. Em junho, o jornal The Washington Post e outros veículos começaram a informar sobre os documentos divulgados por Snowden. As revelações despertaram grande interesse na China e muitos blogueiros afirmaram que elas mostravam o comportamento hipócrita dos EUA na área da segurança cibernética.

Reação. "As revelações feitas por Snowden aumentaram nosso entendimento do espaço cibernético, especialmente os ataques virtuais dos EUA que, provavelmente, se constituem numa arma muito mais poderosa do que sua força militar tradicional", manifestou-se o jornal estatal chinês Global Times em editorial. "Essa arma demonstrou a hipocrisia e arrogância dos EUA."

O comunicado da segunda-feira novamente fez referência direta às revelações de Snowden. "É fato conhecido de todos que todas as instituições importantes dos EUA, há muito tempo, estão envolvidas no roubo cibernético organizado em grande escala, como também em escutas telefônicas ilegais e espionagem, não só contra líderes políticos estrangeiros como também contra empresas e indivíduos", dizia o comunicado.

"A China é vítima de graves roubos cibernéticos pelos EUA e também de escutas e espionagem. Um grande volume de informações divulgadas publicamente mostram que instituições americanas invadiram websites chineses, realizaram escutas telefônicas ilegais e espionagem contra departamentos de governo da China, instituições e empresas, universidades e indivíduos."

Para Washington, os dois casos se inserem em categorias separadas - espionagem estrangeira versus espionagem econômica patrocinada pelo Estado - e a diferença-chave é o fato de as informações obtidas pela NSA por meio de espionagem não serem repassadas para empresas privadas, ao passo que a finalidade específica das supostas informações obtidas por Pequim por meio de espionagem é transmitir tais informações.

Até agora, a NSA desmentiu todo tipo de envolvimento em atividades de espionagem econômica, apesar das acusações. Para Pequim, esse detalhe é irrelevante.

"A diferença entre roubo de informações e segredos empresariais não existe para os chineses", disse Bonnie Glaser, especialista em assuntos asiáticos do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos, com sede em Washington. "Ambos são considerados um jogo limpo e um recurso essencial para acelerar o ressurgimento da China como uma grande potência."

A posição da China pode parecer hipócrita, mas também reflete um autêntico senso de insegurança. Em fevereiro, Pequim anunciou que o presidente, Xi Jinping, chefiaria pessoalmente um novo órgão governamental para supervisionar as atividades de segurança cibernética do país, numa resposta às críticas internas com relação à vulnerabilidade chinesa.

Cancelamento. Essas críticas, de certo modo, são compreensíveis. Soube-se recentemente que a NSA conseguiu se infiltrar na empresa de tecnologia chinesa Huawei Technologies para conferir se ela estava espionando para o Estado chinês e outros países. Além disso, a alegada unidade de pirataria da NSA, conhecida como Office of Tailored Access Operations, segundo artigo de Matthew Aid na revista Foreign Policy, teria "se infiltrado com sucesso" em computadores e em setores de telecomunicações chineses durante o espaço de pelo menos 15 anos".

China e EUA vêm tentando resolver essas pendências por meio do Cyber Working Group, grupo bilateral, criado em abril de 2013, que poderá se tornar a primeira vítima da troca de acusações da segunda-feira. No fim do seu comunicado, Pequim informou que estava suspendendo as atividades do grupo.

*Adam Taylor é jornalista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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