Snowden impõe condições para retornar aos EUA

Pai do ex-agente diz que filho se apresentará caso não seja preso ou submetido a uma ordem de silêncio

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

29 Junho 2013 | 02h07

Edward Snowden, o americano que revelou detalhes sobre o esquema de espionagem dos Estados Unidos, estaria disposto a se entregar às autoridades de seu país - sob a condição de não ser preso antes do julgamento e não ser submetido a uma ordem de silêncio. A proposta foi encaminhada pelo pai do ex-agente, Lonnie Snowden, integrante aposentado da Guarda Costeira, ao secretário de Justiça, Eric Holder.

"Eu não sinto que ele tenha cometido traição. Ele, de fato, violou a lei dos EUA, no sentido de ter revelado informação confidencial", disse o pai à NBC News. "Se as pessoas querem classificá-lo como um traidor, de fato, ele traiu seu governo. Mas eu não acredito que ele tenha traído o povo dos EUA."

A proposta ocorre em um momento delicado para Snowden. Ainda instalado na área de trânsito do aeroporto de Moscou, ele perdeu o amparo do governo do Equador, para onde esperava embarcar em busca de asilo político. Supostamente irritado com o protagonismo do fundador do WikiLeaks, Julian Assange, no caso de Snowden, o presidente equatoriano, Rafael Correa, anunciou ontem ter confiscado o salvo-conduto concedido por seu governo ao ex-agente americano.

O documento substituiria o passaporte americano do fugitivo. Agora, Snowden está nas mãos do governo de Vladimir Putin, que prometeu não extraditá-lo. Putin, entretanto, jamais disse que não o deportaria.

"A situação do sr. Snowden é complexa e não sabemos como ele vai resolvê-la", declarou Correa. O presidente equatoriano teria sido alertado pela embaixadora de seu país nos EUA, Nathalie Cely, de que Assange estava ofuscando o papel do governo de Quito no episódio.

O fundador do WikiLeaks continua protegido na Embaixada do Equador em Londres de uma extradição para a Suécia, onde é acusado de agressões sexuais. O australiano teria enviado uma carta de desculpas para o chanceler equatoriano, Ricardo Patiño, por "involuntariamente ter causado desconforto ao Equador com a questão de Snowden".

A embaixada equatoriana em Washington também teria tido um papel central na redução da tensão entre os dois países em torno do caso de Snowden. O Equador disse ter recebido ameaça do governo americano de retirada das preferências comerciais a seus produtos caso concedesse asilo ao americano e reagiu dizendo-se pronto a renunciar às tarifas mais baixas. Não está claro até que ponto a decisão mais recente de Correa de cancelar o salvo-conduto de Snowden foi resultado de gestões de Washington.

O pai de Snowden afirmou ontem que não conversa com o filho desde abril, antes de sua partida dos EUA para Hong Kong, e não explicou como recebeu a proposta do filho para o governo americano.

Em Hong Kong, Snowden forneceu material confidencial sobre o sistema de vigilância da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) aos jornais The Guardian e Washington Post. O material detalhou o monitoramento de chamadas telefônicas pela NSA e também seu acesso a servidores das nove maiores companhias de internet dos EUA.

Snowden trabalhou por três meses como funcionário terceirizado da Booz Allen na filial da NSA no Havaí. Depois de identificar-se como a fonte desse material confidencial, em Hong Kong, ele acrescentou que a NSA mantém uma equipe de hackers com a tarefa de invadir computadores na China.

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