Snowden inspira espiões russos

Se estiver na Rússia em julho, ex-agente da CIA terá celular e internet monitorados; assim como ocorre nos EUA

Leonid Bershidski*, O Estado de S.Paulo - Bloomberg

07 de novembro de 2013 | 02h04

Menos de três meses depois de conceder asilo político a Edward Snowden, responsável pelo vazamento de informações da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês), a Rússia projeta a implementação do tipo de vigilância que Snowden denunciou nos EUA.

O Ministério das Comunicações e o Serviço Federal de Contraespionagem (FSB), sucessor da KGB, prepararam um regulamento exigindo dos provedores de acesso à internet e das operadoras de telefonia celular que instalem equipamentos permitindo registro e armazenamento de todos os dados que trafegam em suas redes por um período mínimo de 12 horas, informações que ficarão à disposição dos serviços de espionagem.

De acordo com reportagem do jornal Kommersant, o rascunho também obriga os provedores a armazenar informações de identificação a respeito dos envolvidos em todas as trocas de dados. Isso incluiria endereços de e-mail e de internet, IDs de salas de bate-papo e a localização física dos usuários do Skype e do Google Hangouts. Os equipamentos devem ser instalados até 1.º de julho de 2014.

A nova diretriz parece violar o Artigo 24 da Constituição russa, segundo o qual informações pessoais não podem ser coletadas e armazenadas sem o consentimento do cidadão. Conhecido como Sorm, o atual sistema russo de vigilância eletrônica permite que os serviços de espionagem monitorem o tráfego na internet, mas não exige que eles registrem as informações. O FSB e outros serviços de segurança precisam de uma ordem judicial para ter acesso a dados que são capazes de analisar. O custo anual do registro e do armazenamento do tráfego digital é estimado em US$ 100 milhões.

Os novos requisitos aproximariam o Sorm dos sistemas de vigilância eletrônica dos EUA (Prism) e da Grã-Bretanha (Tempora), cuja existência foi revelada em maio. Parece que, após as revelações de Snowden, os serviços russos de espionagem decidiram que o Sorm precisava de aprimoramento.

Se Snowden ainda estiver na Rússia em julho de 2014, suas comunicações eletrônicas também serão registradas e armazenadas pela operadora de celular e pelo provedor de acesso à internet - que, diferentemente das empresas americanas grampeadas pela NSA, nem tentarão esconder o que fazem.

*Leonid Bershidski é jornalista e escritor.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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