Só a Índia pode ajudar Mianmar

Uma análise fria sugere que o dinheiro birmanês acaba em Nova Délhi; economia indiana pode servir de suporte

Timothy, Garton Ash, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2010 | 00h00

Se quisermos ajudar Aung San Suu Kyi e a causa da liberdade em Mianmar, é preciso ter esperança de que a Índia redescubra o espírito do que tem de melhor. A maior democracia do mundo precisa urgentemente rever sua atitude em face de uma das piores tiranias do mundo, acocorada como um sapo à porta da mesma Índia.

A menos que o faça, parece improvável que as fracas e divididas forças de oposição domésticas no interior de Mianmar e as potências combinadas do Ocidente possam produzir o impulso necessário para ajudar no sucesso da revolução negociada, não-violenta, que a heroína libertada novamente evocou. Enquanto os generais de Mianmar puderem se apoiar na real política estratégica e comercial da China e nos subterfúgios comerciais da Tailândia e outros países da Associação de Países do Leste Asiático (Asean) famintos por energia, a única potência capaz de mudar o equilíbrio de forças dentro e em torno de Mianmar é a Índia.

Talvez eu esteja errado. Espero estar. Mas uma análise fria sugere que o dinheiro birmanês acaba em Nova Délhi. Preleções pesadas à Índia por ex-potências coloniais, ou pelos EUA, são claramente deslocadas e podem ser contraproducentes. Não se trata de pedir à Índia que se alinhe à polícia ocidental. Ao contrário, nós no Ocidente deveríamos olhar para o gigante democrático regional nos dizer como facilitar da melhor maneira uma transformação na miserável ditadura vizinha. É assim que as coisas deveriam operar num mundo cada vez mais pós-ocidental. E quem melhor para apontar o caminho em apoio a um dos movimentos de libertação mas lindamente não violentos de nosso tempo, que o país de Mahatma Gandhi e Jawaharlal Nehru?

Felizmente, existem hoje algumas vozes indianas importantes levantando as questões necessárias sobre a política indiana com mais autoridade que qualquer comentarista ocidental poderia ter. Numa coluna recente, Shashi Tharoor, um ex-chanceler indiano e sub-secretário-geral da ONU, recordou o itinerário de seus pais, num possível excesso de idealismo ou um suposto realismo sem princípios. Nehru era amigo do pai de Suu Kyi, Aung San, o líder da luta pela independência de Mianmar. A própria Suu Kyi viveu e estudou em Nova Délhi, e um longo ensaio em seu livro Freedom from Fear é dedicado a comparar a vida intelectual indiana e birmanesa sob o domínio colonial. No fim dos anos 1980 e início dos 90, a Índia deu um generoso apoio a ela e a sua Liga Nacional pela Democracia.

Mas aí os rivais regionais da Índia, China e Paquistão, começaram a se insinuar para o regime birmanês para tirar vantagem de suas grandes reservas de gás, petróleo e outros recursos naturais. Quando o então presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, visitou Mianmar, o chanceler indiano se apressou em fazer o mesmo. "A Índia fez uma virada de 180 graus", escreve Tharoor. Ela colocou seus interesses econômicos e geoestratégicos à frente de suas simpatias e valores. Particularmente chocante foi a resposta indiana - ou melhor, a não-resposta - aos protestos pacíficos supremamente gandhianos liderados por monges budistas em Mianmar em 2007. O ministro indiano do Petróleo visitou o país para assinar contratos de petróleo e gás com o regime no auge dos protestos. Quando a apressadamente dita "Revolução de Açafrão" foi brutalmente reprimida pelos regime militar, o governo indiano se contentou com declarações patéticas esperando que "todos os lados resolvessem pacificamente suas questões".

Ainda mais eloquente é a crítica do grande pensador do desenvolvimento econômico e político Amartya Sen. Num artigo escrito antes da soltura de Suu Kyi, ele recorda sua primeira infância passada em Mandalay (onde seu pai era um professor visitante) antes de clamar: "Devo dizer que, como um leal cidadão indiano, me parte o coração ver o primeiro-ministro de meu país democrático - e um dos líderes políticos mais humanos e simpáticos do mundo - engajado em dar as boas-vindas aos açougueiros de Mianmar". O problema surge, ele sugere, "de uma mudança no clima político na Índia em que interesses nacionais estreitamente definidos - ou o que é tomado por interesses nacionais - recebem mais lealdade, e em que a passada propensão da Índia para dar lições ao mundo sobre moralidade política global é vista como uma triste memória da ingenuidade nehruviana". Como qualquer outra democracia, a Índia precisa alcançar um equilíbrio entre seus interesses e seus valores; ou, para ser mais preciso, entre seus valores e interesses de longo prazo, de um lado (pois a Índia tem um interesse de longo prazo vital num Mianmar aberto e próspero) e seus interesses estreitos de curto prazo, de outro. A Índia está longe de ser, é claro, a primeira democracia da história a alcançar um equilíbrio errado. (Pensem nos Estados Unidos e a América Latina, por exemplo, para não mencionar a Grã-Bretanha e a Índia.) Mas, a Índia errou. Eu compreendo que numa reunião com diplomatas na capital birmanesa no último domingo, Suu Kyi tenha expressado, gentil mas claramente, ao embaixador indiano sua esperança de que os interesses comerciais não distorceriam a amizade histórica entre seus dois países.

Isso não significa sugerir que a Índia deva se juntar repentinamente à política de sanções adotada há muito pelo Ocidente - nem tampouco, aliás, prescrever alguma resposta política particular. Como a própria Suu Kyi, os amigos da liberdade em Mianmar, de perto e de longe, precisam tirar algumas semanas para elaborar o que está realmente ocorrendo ali. Passada a excitação inicial com a sua libertação - e, para mim, ela supera um casamento real algum dia - vemos claramente que o contexto político no qual ela ressurge está a anos-luz de distância, não só de um momento Nelson Mandela na África do Sul ou de um momento Vaclav Havel na Checoslováquia, mas até de um momento Andrei Sakharov na União Soviética.

Longe de aplainar o caminho para uma eleição libertadora, essa soltura segue uma eleição que o regime militar manipulou e fraudou com mão pesada, puxando o tapete debaixo daqueles oposicionistas de "terceira força" que abandonaram a Liga Nacional pela Democracia para tentar trabalhar por mudanças no interior do sistema. O centro reformista, pragmático e francamente vira-casaca, foi espremido no momento mesmo em que seria mais necessário.

Enquanto uma prisioneira política internacionalmente famosa era libertada, mais de 2.000 outros continuam encarcerados. Ela foi a primeira a insistir em que nenhum processo sério de negociação e reconciliação pode ser alcançado enquanto eles estiverem presos. /TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É ESCRITOR E HISTORIADOR

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