Ronaldo Schemidt/AFP
Ronaldo Schemidt/AFP

Só a renúncia de Evo Morales não acabará com conflito social na Bolívia

Presidente deixou uma Bolívia dividida e os novos líderes correm o risco de inflamar essas cisões

The Economist, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2019 | 06h00

No dia 12, dois dias após Evo Morales renunciar abruptamente à presidência da Bolívia, uma calma tensa se instalou em La Paz. As ruas estavam desertas. Ônibus e teleféricos, vazios. A maioria dos habitantes ficou em casa. O Exército tomara o controle das ruas. Mas a trégua não durou. No dia seguinte, a violência voltou a explodir em várias regiões, incluindo La Paz. Pelo menos dez pessoas morreram em distúrbios que ocorreram antes e após a decisão de Evo.

A nova onda de violência foi uma resposta à autoproclamação como presidente interina de Jeanine Áñez, que até a renúncia de Evo era a política de oposição de mais alto escalão no Congresso, como vice-presidente do Senado. Ela nomeou um gabinete e prometeu realizar novas eleições em breve. Muito depende de estas serem aceitas como legítimas pelos milhões de bolivianos que ainda reverenciam Evo. Até agora, os sinais não são nada promissores.

Evo caiu porque considerava essa reverência garantida e imaginava que fosse mais ampla do que de fato é. Eleito em 2005 o primeiro presidente de origem indígena da Bolívia, ele expandiu os direitos dos povos indígenas e usou o dinheiro das vendas do gás natural do país para reduzir a pobreza. Antes de sua presidência, “pessoas pobres como nós nunca poderiam ser mais do que a empregada, o motorista ou o jardineiro”, diz Lilian Peralta, que trabalha em uma loja de eletrônicos em La Paz. Tais sentimentos o ajudaram a vencer a reeleição duas vezes.

Mas, quando ficou claro que Evo pretendia continuar no cargo, com poderes quase incontestáveis, talvez por toda a vida, os bolivianos recusaram. Em um referendo em 2016, eles rejeitaram sua tentativa de concorrer novamente à reeleição, desafiando a Constituição que ele próprio havia promulgado. O Tribunal Constitucional, que na época era um apêndice da presidência, disse que ele poderia concorrer mesmo assim.

Quando a eleição foi finalmente realizada no mês passado, ele foi declarado vencedor. Seu partido, o Movimento para o Socialismo (MAS), manteve a maioria no Congresso. Mas surgiram suspeitas de fraude. Dezenas de milhares de pessoas, a favor e contra o presidente, saíram às ruas. Uma “greve cívica” anti-Evo tomou Santa Cruz, a maior cidade da Bolívia.

Evo tentou restabelecer a calma, primeiro convidando a Organização dos Estados Americanos (OEA) para auditar os resultados das eleições. Depois prometeu novas eleições quando a equipe da OEA relatou evidências de fraude. Isso não aplacou os manifestantes. A polícia disse que não obedeceria mais às ordens de seus comandantes.

No dia 10, Williams Kaliman, comandante das Forças Armadas, sugeriu que Evo renunciasse para que “a paz pudesse ser restaurada e a estabilidade, mantida”. Até então, o Exército era um “forte bastião de defesa” do presidente, observa Franklin Pareja, cientista político da Universidade San Andrés, em La Paz. Sem sua autoridade, Evo voou para o México, que lhe concedeu asilo.

A estabilidade que o general Kaliman espera será difícil de alcançar. Evo não está ajudando. Ele chamou sua renúncia de “golpe cívico, político e policial”, acrescentando: “Meu pecado é ser indígena, líder sindical e cocaleiro”. Ao partir para o México, prometeu em um tuíte “retornar com mais força e energia”.

Naquela noite, seus apoiadores queimaram casas, lojas e ônibus em La Paz. No dia seguinte, milhares de pessoas marcharam por El Alto, uma cidade vizinha, agitando a wiphala, a bandeira indígena, e gritando: “Sim, agora, guerra civil!”. Os manifestantes pró-oposição saquearam a casa de Evo em Cochabamba e apareceram vídeos de policiais rasgando a wiphala de seus uniformes.

Os novos governantes da Bolívia correm o risco de inflamar essas divisões. Áñez, uma conservadora do Departamento de Beni, no nordeste, agora está posando para fotos com povos indígenas. Mas ela os provocou no passado. Recentemente, tuitou uma foto de pessoas usando roupas indígenas com jeans e tênis. E comentou: “Nativos??? Veja só!!!”. Algumas pessoas tomaram isso como um questionamento irônico de sua autenticidade étnica.

Embora fosse a próxima na linha sucessória depois da renúncia de várias autoridades, o Congresso não ratificou sua nomeação para a presidência. O MAS boicotou a sessão convocada para nomeá-la, privando-a de um quórum. E não ratificou a renúncia de Evo pelo mesmo motivo.

O Tribunal Constitucional, que havia abençoado a candidatura de Evo à reeleição, veio em socorro de Áñez. Determinou que sua presidência era legítima, pois Evo havia fugido e a ordem precisava ser restaurada. Parlamentares do MAS disseram que votarão para “anular” sua nomeação.

Talvez mais poderoso do que a presidente interina seja Luis Fernando Camacho, líder do Comitê pró-Santa Cruz e organizador da greve que parou a cidade. Ele é uma figura sectária. De início, pediu a todos os deputados que renunciassem e propôs que uma “junta de transição”, que a Constituição não prevê, dirigisse o governo interino. Agora, apoia Áñez. Católico fervoroso, Camacho declarou no palácio presidencial que “a Bíblia voltava a dominar” o edifício. Recentemente, Camacho tem procurado apagar as fissuras, pedindo aos bolivianos que respeitem a wiphala.

Por mais que Camacho possa desejar, a renúncia de Evo não significa que o MAS esteja derrotado. “Essas pessoas estão se esquecendo de que o MAS é a maior força política do país”, diz o prefeito de uma cidade rural do sul da Bolívia. Ele, como outras autoridades, diz que os apoiadores da oposição o ameaçaram.

Carlos Mesa, o segundo colocado nas eleições presidenciais, acredita que a Bolívia precisa de um acordo entre o MAS e a oposição para restaurar a democracia. Ele pediu aos parlamentares que escolham um novo Tribunal Eleitoral, o que ajudaria a legitimar as próximas eleições.

Sem essas formas de cooperação entre inimigos e amigos de Evo, a inquietação social pode continuar, alerta María Teresa Zegada, socióloga da Universidade San Simón, em Cochabamba. Embora os protestos tenham começado com o povo, agora cabe aos políticos inventar maneiras de contê-los pacificamente, disse. Deixar a busca de uma solução nas mãos dos bolivianos irados “levará a uma tragédia.” / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

© 2019 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.