Só é possível fazer a paz com o inimigo

A posição da ETA sobre um cessar-fogo permanente mudou porque as circunstâncias impuseram isso: ela tem cinco vezes menos militantes do que há 20 anos, membros pouco experimentados, 850 separatistas na prisão. Não havia mais muito a tergiversar. Agora, a questão é saber se não se trata apenas de uma armadilha destinada a permitir que o Batasuna refaça sua saúde política e se candidate às eleições municipais e autônomas de 2011 ou se a iniciativa é séria. Eu estou inclinado à primeira hipótese.

Jean Chalvidan, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2011 | 00h00

As relações entre as prisões de líderes do movimento e as propostas de processo de paz são evidentes: a ETA é dirigida por três sexagenários, Pastor, Dienteputo e Paticorto, e envolve apenas militantes certamente valorosos, mas sem experiência. Não há mais de 200 deles, que se debilitam em seus pavilhões ou apartamentos esperando uma ordem que não vem jamais.

O governo espanhol desconfia das proposições do grupo porque até aqui todas as tréguas da ETA foram limitadas no tempo e pelo fato de militantes extremistas pressionarem para chegar ao poder pela via das armas. Esse comunicado deixa todo mundo insatisfeito. Ele não fala em deposição das armas, nem de solução definitiva. Apenas de um processo. Não nos empolguemos.

O fato incontornável se dará neste ano, quando, nas eleições locais, o Batasuna ou uma de suas franquias terá o direito de se candidatar diante do eleitorado, e então a ETA se manterá em retirada, ou a via separatista será mais uma vez impedida de se expressar, e o grupo retomará suas extorsões. Quanto a uma "verificação" pela "comunidade internacional", trata-se de uma noção etérea, inexistente. O caso envolve a ETA e Madri, e um pouco Paris - mais ninguém, seja Prêmio Nobel ou não.

O que ainda falta para a paz sustentável é a vontade compartilhada de todos de se sentar em torno de uma mesa de negociações. Hoje, a bola está no campo de Madri, cuja atitude em 2005 foi catastrófica. Cabe ao premiê José Luis Rodríguez Zapatero ser generoso, libertar os presos da ETA doentes, em fase terminal, soltar os militantes sem sangue nas mãos, reaproximar os prisioneiros do País Basco. E entender que só podemos fazer a paz com nosso inimigo.

É DOUTOR EM CIVILIZAÇÃO ESPANHOLA E UM DOS MAIORES ESPECIALISTAS DA FRANÇA EM ETA. É AUTOR DE "SECRETS D"ETA", QUE SERÁ LANÇADO EM BREVE EM PARIS

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