REUTERS/Carlos Barria
REUTERS/Carlos Barria

'Só eu sei resolver': discurso da campanha de Trump colide com mudança na percepção do público

Vários republicanos pressionam o presidente para se concentrar menos em si mesmo conforme se prepara para encarar os eleitores

Michael Scherer, Toluse Olorunnipa, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2020 | 05h00

WASHINGTON - O presidente Donald Trump vai celebrar o aniversário da independência americana seguindo seu habitual estilo narcisista, com um espetáculo de fogos de artifício emoldurando-o diante da montanha de granito esculpida com o rosto de quatro dos presidentes mais celebrados da história do país.

Mas os democratas esperam que a mais recente demonstração de autobajulação de Trump no Monte Rushmore tenha um efeito diferente de esforços semelhantes no passado, na esteira de uma mudança na percepção do público indicando que a corrida presidencial de 2020 é disputada em território diferente daquele da primeira campanha de Trump pela Casa Branca.

"Em 2016, a fanfarronice de Trump era vista por alguns como uma rejeição positiva de um status quo ineficaz. Pensaram que ele acabaria mostrando a que veio", disse o ex-diretor de campanha de Hillary Clinton, Robby Mook, explicando a mentalidade que agora domina os estrategistas do partido dele. “Hoje, vemos a mesma fanfarronice, mas as pessoas estão morrendo como resultado."

Cerca de 7,5 mil convidados são esperados como público de Trump. Seguindo as preferências do presidente, o comício vai ocorrer sem nenhuma ordem da governadora republicana Kristi Noem, da Dakota do Sul, exigindo o distanciamento social ou o uso de máscaras, apesar dos parâmetros federais que os recomendam e da opinião pública, majoritariamente contrária a eventos desse tipo. 

Uma recente pesquisa de opinião realizada pela Fox News revelou que 8 em cada 10 americanos defendem o uso de máscaras e menos de um em cada quatro considera boa ideia a realização de grandes comícios e eventos políticos envolvendo os candidatos presidenciais no momento.

Essa contradição se tornou um alvo central da campanha do ex-vice-presidente Joe Biden, que tem se valido de pesquisas de opinião dos democratas e grupos de trabalho para explorar novas e imensas vulnerabilidades de Trump que contribuíram para a recente queda do atual presidente nas intenções de voto.

"Sr. presidente, a questão não é você", disse Biden na terça feira, em resumo sucinto da sua mensagem. “A questão é a saúde e o bem-estar do povo americano."

Político de instintos, Trump rechaçou durante anos as críticas ao seu estilo público narcisista e mostrou o erro dos críticos segundo os quais isso levaria à sua derrocada. Ele surfou na onda da própria fanfarronice até ficar com a candidatura do Partido Republicano em 2015 e conquistou a Casa Branca com uma teoria de governo pelos grandes homens que pode ser resumida em sua declaração durante a convenção: “Só eu sei resolver".

Desde então, Trump declarou repetidas vezes ser o melhor presidente, o mais preparado e mais honrado. “Ninguém jamais fez um trabalho melhor do que o meu na presidência", disse ele em 2018.

Pandemia

Mas, este ano, com a chegada da pandemia e da paralisação econômica, ele teve dificuldade para usar esse convencimento contra temores nacionais diante de crises que afetaram dolorosamente a vida de praticamente todos os americanos. Nas duas semanas mais recentes, Trump pressionou pela realização de comícios sem o uso de máscaras no Arizona e em Oklahoma, dois estados onde o número de casos do coronavírus vem aumentando muito. 

Pressionou também para que a convenção de nomeação do candidato do partido fosse transferida para a Flórida, outro estado que enfrenta um surto em alta da doença, para aumentar a probabilidade de ser recebido por um público entusiasmado no fim de agosto.

O estrategista republicano Doug Heye, ex-porta-voz do Comitê Nacional Republicano que não votou em Trump, disse que o eleitorado reparou quando agentes do serviço secreto e funcionários da campanha tiveram que se auto-isolar após um comício organizado por Trump em Tulsa no mês passado, contrariando as objeções dos especialistas em saúde. Dois agentes e pelo menos seis funcionários de campanha apresentaram resultado positivo para a presença do vírus.

“Para Trump, o desafio do momento está no fato de todos os riscos assumidos beneficiarem exclusivamente a ele", disse Heye. “Sem dúvida, isso fará com que alguns eleitores que aprovam seu estilo de governo desistam de votar nele. Assim, ao agir em nome de seus interesses imediatos, ele está se prejudicando no longo prazo, colocando em risco a reeleição."

O pesquisador democrata Jefrey Pollock administrou grupos de trabalho analisando as intenções de voto em Trump em 2016, e descobriu que muitos americanos que não se interessavam por ambos os candidatos presidenciais ainda foram atraídos por Trump por causa de suas declarações convencidas, pois sentiam suficiente segurança econômica para apostar em alguém novo. Essa mesma categoria de eleitor - pessoas que não gostam de nenhum dos dois candidatos - prefere agora Biden em relação a Trump, por uma diferença de 55% a 21%, de acordo com pesquisa de opinião da Monmouth Poll divulgada na quinta feira.

“Passados três anos, são os eleitores que precisam de atenção", disse Pollock a respeito de Trump. “O eleitorado está vendo um indivíduo que se sente superior em um momento em que o público precisa de mais atenção para suas necessidades."

Outra pesquisa de opinião, realizada pela Navigator Research, coalizão criada para informar a estratégia dos democratas para toda a chapa, identificou nas semanas mais recentes uma alta no número de pessoas que descrevem Trump como "egoísta", de acordo com o pesquisador Nick Gourevitch, integrante do projeto. A partir de uma longa lista de atributos descritivos negativos que os democratas testam regularmente contra Trump - incluindo "incompetente", "caótico" e "desagregador" - a pesquisa revelou que "egoísta" traz mais preocupações entre os eleitores que se dizem independentes.

“Boa parte das preocupações manifestadas durante a pandemia - ignorar os especialistas, não seguir as recomendações - pode ser atribuída a esse traço", disse Gourevitch.

Pesquisas de opinião mostram que Trump não conquistou novos eleitores pela empatia em seus quatro anos de mandato. Pesquisa recente realizada pelo Pew Research Center revelou que 41% do público acham que ele “se preocupa com as necessidades das pessoas comuns", proporção comparável aos 40% que responderam em pesquisa da Gallup de setembro de 2016 acreditar que “ele se importa com as necessidades de pessoas como nós".

Mas o candidato contra quem ele está concorrendo mudou, e o mesmo vale para a dinâmica política. Enquanto 48% dos eleitores tinham impressão favorável da candidata democrata Hillary Clinton no quesito empatia na pesquisa de opinião realizada pela Gallup quatro anos atrás, na nova pesquisa do Pew, 54% atribuem a Biden a qualidade positiva de se importar com as pessoas comuns.

O problema da visão de mundo autorreferente de Trump foi visto em abril nos grupos de trabalho pesquisados pelo SuperPAC (comitê de ação política) Unite The Country, que defende Biden. Documentos produzidos pelo grupo posteriormente identificaram uma grande oportunidade para Biden, que deveria explorar sua reputação de político empático.

“O notável é que boa parte das críticas à resposta de Trump para o vírus diz respeito à personalidade dele (‘ele sempre se coloca no centro de tudo') e não à responsabilidade de implementar políticas que poderiam fazer a diferença", escreveu um pesquisador. A conclusão, que se tornou tema importante nos investimentos publicitários de US$ 1,4 milhão feitos pelo grupo em anúncios de TV, diz que “para muitos eleitores, o ego de Trump está atrapalhando o combate à Covid-19".

Desde então, Biden tem se envolvido em constantes demonstrações de empatia e preocupação pelos outros, usando máscara consistentemente e, com frequência, deixando-a pendurada na orelha ao falar com a câmera, sublinhando sua importância.

Aos 77 anos, ele estaria no grupo de risco caso contraísse coronavírus, e as viagens e o aparato de segurança significam que ele está constantemente em contato com um grande número de possíveis infectados. Mas, por enquanto, ele se recusou a fazer o teste, dizendo que não quer “assumir a linha de frente".

“Não quero tomar o lugar de ninguém nesse processo", disse Biden.

Os defensores do presidente dizem que os eleitores gostam mais da franqueza de Trump do que de gestos simbólicos que lembram manobras políticas.

“O presidente é quem ele é, e vai pressionar", disse Bryan Lanza, assessor que acompanhou a campanha de Trump em 2016 e o início do seu mandato. “Não se trata de um político típico que nos escuta, diz uma coisa e faz outra pelas nossas costas. Com Donald Trump, sabemos exatamente o que teremos, e sabemos exatamente o que ele vai fazer."

A campanha de Trump não respondeu aos pedidos de contato.

Ex-funcionários 

Mas um crescente número de ex-assessores do presidente tem se manifestado nas semanas mais recentes, apresentando críticas às vezes brutais contra sua capacidade de liderança e caráter pessoal. Boa parte das críticas dizem respeito ao egoísmo e narcisismo de Trump, que teria colocado as próprias necessidades acima das necessidades do país.

A lista de ex-assessores convertidos em detratores inclui o ex-secretário da defesa Jim Mattis, o ex-chefe de gabinete da Casa Branca John Kelly e o ex-assessor de segurança nacional John Bolton.

No livro que publicou no mês passado, Bolton descreve Trump como alguém obcecado com a cobertura da imprensa, mais interessado na própria reeleição do que em qualquer objetivo mais amplo nas relações exteriores.

"Tenho dificuldade em identificar uma decisão significativa de Trump durante o período em que estive na Casa Branca que não tenha sido motivada pelo cálculo da reeleição", escreveu Bolton em seu livro.

Trump, que descreveu Bolton como "idiota", alegou que as memórias do ex-assessor estão repletas de mentiras.

Vários republicanos pressionaram Trump em caráter público e privado para que o presidente se concentrasse menos em si mesmo conforme se prepara para encarar os eleitores. A falta de foco da resposta de Trump quanto às suas “principais prioridades" para um segundo mandato durante encontro com o público promovido pela Fox News no mês passado fez soar o alarme entre os aliados que esperavam do presidente uma visão mais detalhada para os próximos quatro anos.

Em sua resposta, Trump usou a palavra "eu" 13 vezes, enquanto falava de sua “experiência” de quem vem de fora do sistema de Washington e das “grandes pessoas" que integram seu governo.

“Sempre digo que o talento é mais importante que a experiência", disse ele, revelando pouco de seus planos para um segundo mandato.

Cinco dias mais tarde, Biden comentou a resposta do presidente em evento realizado na sua casa, em Delaware, falando a uma sala quase vazia de jornalistas praticando o distanciamento social.

“Caso ainda não tenham percebido, para o presidente tudo gira em torno dele", disse Biden. “Não queremos saber dele. Queremos saber de nós.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.