Só ideias derrotarão radicais

'Centro de gravidade' do Estado Islâmico é a força que grupo tem para recrutar jovens

PAUL, MCHALE, MCCLATCHY NEWSPAPERS, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2014 | 02h03

Existe um termo técnico militar que tem um profundo significado na luta dos EUA conta o Estado Islâmico (EI). Ele expressa a ideia de que existe uma fonte de poder do inimigo reconhecível que, se atacada com sucesso, pode significar uma derrota estratégica. A força desse inimigo - e sua potencial vulnerabilidade - é o seu chamado "centro de gravidade".

O EI pode ser contido e destruído, mas tal objetivo não será alcançado pela força militar bruta. O centro de gravidade do EI existe e está bem além do campo de batalha. Está nos corações, mentes e aspirações dos jovens, homens e mulheres atraídos para a causa do extremismo islâmico violento.

Eliminar os combatentes do EI é importante, mas extinguir a capacidade de recrutamento do grupo é o real centro de gravidade.

Durante toda a história dos EUA, homens e mulheres das Forças Armadas combateram e morreram por uma causa nobre: a defesa inabalável das liberdades individuais. Eles entendiam - muitas vezes quando os políticos não percebiam - que havia alguma coisa em jogo que transcendia o interesse pessoal.

Sim, para serem eficientes, as Forças Armadas precisam ser bem treinadas e bem equipadas, e necessitam de uma boa liderança. Mas o mais importante é que elas têm de acreditar que estão combatendo por algo que vale o seu sangue e seu sacrifício.

Privado desse pretexto, o EI luta por uma ideologia maligna. Pratica atos bárbaros em nome de Deus. Subjuga brutalmente as mulheres. Abomina as noções de educação e cultura. Decapita prisioneiros por não conseguirem declamar credos religiosos particulares.

Na busca do seu implacável objetivo de esmagar a liberdade individual, o EI é simplesmente a verdadeira manifestação da intolerância violenta - o lado mais remoto e sombrio da natureza humana. Para o EI e seus líderes, a diversidade não é um valor social positivo, mas um pecado que deve ser punido com a morte.

Os que têm de ser derrotados não são os combatentes, mas a própria ideia que fundamenta o EI. A luta contra esse grupo - e contra outros que abraçam ideologia similar - não deve se constituir num ataque a uma religião particular ou um choque de civilizações.

É uma afirmação da própria civilização - uma defesa vigorosa da tolerância religiosa, da inviolabilidade da consciência e da liberdade individual. É uma luta que reflete a crença de que o poder governamental, para ser legítimo, precisa ser guiado por tais princípios.

Quando trabalhei no Pentágono, com frequência ouvi referências à "batalha de ideias" - um conceito usado para descrever o inevitável conflito entre nossas crenças mais profundas e as defendidas pelos extremistas islâmicos. Na verdade, essa batalha jamais foi travada e já há demora demais. Se essa luta por empreendida sabiamente, será possível frustrar o apelo do grupo extremista no recrutamento de novos membros.

Memória. O presidente Barack Obama deveria se guiar pelo exemplo histórico de Franklin Roosevelt, ler o discurso de Roosevelt proferido em 6 de janeiro de 1941, "As Quatro Liberdades". Trata-se de um compromisso perene com a liberdade de expressão, liberdade de crença, liberdade de querer e libertar-se do medo - em todas as partes do mundo.

Depois, usando todos os instrumentos disponíveis da mídia social e um apoio diplomático reforçado, o presidente deveria seguir o conselho de Roosevelt: "Assim como nem só de pão vive o homem, nem só com armas ele luta. Aqueles que protegem nossas defesas e os que criam tais defesas precisam ter a resistência e a coragem que emanam da fé inquebrantável no modo de vida que estão defendendo".

Essa mensagem (de Roosevelt e, esperamos, de Obama) diferencia os EUA dos seis inimigos radicais e é a chave para o sucesso estratégico. Mas para alcançar esse objetivo, ela precisa ser um tema recorrente e não simplesmente um discurso.

É preciso uma campanha prolongada no sentido militar, não político, exigindo repetição e tenacidade, uma disputa aberta com a ideologia do extremismo islâmico. Expressa em primeiro lugar pelo presidente, a mensagem deve ser repercutida por outros líderes mundiais. É por isso que se está combatendo no momento.

No curto prazo, o Exército americano tem o papel fundamental de conter o avanço tático do EI na Síria e no Iraque. E é claro que os EUA precisam fornecer muito mais ajuda para as forças militares iraquianas, para as forças moderadas de oposição na Síria e para os curdos - incluindo a mobilização de um número limitado de forças de operações especiais americanas, equipes de controle aéreo especialistas em comunicações e logística. E soldados no campo de batalha.

A vitória estratégica dos EUA e seus aliados, no entanto, só será alcançada quando ficar inegavelmente claro que o país está lutando por uma causa valiosa - e seus adversários do EI, não. Chegou o momento de lançar um ataque coordenado contra o centro de gravidade do EI - o idealismo extremista e a motivação equivocados dos seus recrutas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EX-CONGRESSISTA (1993-1999), EX-SECRETÁRIO ADJUNTO DA DEFESA (2003-2009) E CORONEL REFORMADO DA MARINHA AMERICANA

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