Só Jefferson poderia esclarecer

Sinal gráfico no original da carta de fundação dos EUA causa interpretação dúbia de texto

JENNIFER, SCHUESSLER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2014 | 02h03

Todos os anos, no dia 4 de julho, alguns americanos leem a Declaração de Independência, para se familiarizar com a carta da fundação dos EUA, exatamente como era quando foi assinada pelo Segundo Congresso Continental, em 1776.

Ou mais ou menos exatamente? Uma pesquisadora americana agora afirma que a transcrição oficial do documento elaborado pelo Arquivo Nacional contém um erro significativo - bem no meio da frase que começa com "Consideramos estas verdades por si mesmo evidentes".

O erro, segundo Danielle Allen, professora do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, diz respeito a um ponto que aparece na transcrição logo depois da frase "a vida, a liberdade e a busca da felicidade", mas quase certamente, ela afirma, não no pergaminho original hoje muito desbotado.

Na sua opinião, o pontinho de tinta que ali não se encontra faz muita diferença, e contribui para o que ela considera um "equívoco rotineiro, mas grave", do documento.

O ponto cria a impressão de que a lista de verdades evidentes por si mesmas termina com o direito à "vida, à liberdade e à busca da felicidade", afirma. Mas, argumenta, o que Thomas Jefferson pretendia, o que vem a seguir é igualmente importante: a função essencial dos governos - "instituídos entre os homens, derivando os seus justos poderes do consentimento dos governados" - que consiste na garantia de tais direitos. "A lógica da sentença vai do valor dos direitos individuais à importância do governo como instrumento de proteção destes direitos", disse Allen. "Acrescentando-se o ponto, perde-se esta relação."

Debate. Corrigir a pontuação, se é que estaria de fato errada, talvez não acabe com os debates intermináveis sobre o significado mais profundo da Declaração da Independência. Mas os especialistas que reviram a pesquisa de Allen afirmam que ela levantou uma questão grave. "Acaso os trechos sobre a importância do governo fazem parte de um argumento cumulativo, ou - como os americanos tenderam a ler o documento - estão subordinados à vida, liberdade e à busca da felicidade?", indagou Jack Rakove, historiador de Stanford e membro do Comitê de Assessoria Pais Fundadores do Arquivo Nacional. "Você pode justificar a frase sem pontuação, mas esclarecê-la ajudaria."

Allen começou a estudar a questão do ponto dois anos atrás, enquanto pesquisava para o seu livro Our Declaration: A Reading of the Declaration of Independence in Defense of Equality, publicado na semana passada. O ponto não aparece nas outras versões produzidas com a supervisão do Congresso em 1776, ou na maioria dos textos mais importantes do século 20 sobre o documento. Então, o que está fazendo na transcrição do Arquivo Nacional? Allen escreveu ao Arquivo em 2012 levantando a questão, e recebeu uma resposta informando que seus pesquisadores analisariam o caso; depois, silêncio.

Mas, nos últimos meses, ela escreveu a estudiosos e especialistas em manuscritos sobre a "batalha do ponto". No mês passado, o Arquivo, depois de uma reunião com Danielle Allen, anunciou que está estudando algumas modificações em sua apresentação online da Declaração da Independência.

"Queremos aproveitar desta possível descoberta", escreveu num e-mail William A. Mayer, diretor de serviços de pesquisa do Arquivo. Agora, acrescentou, "uma das principais prioridades" é discutir como será feito o reexame do pergaminho em péssimas condições sem correr riscos. O pergaminho, elaborado no final de julho de 1776 e atribuído a Timothy Matlack, está exposto à visitação pública. No ano passado, mais de um milhão de pessoas fizeram fila para ver o documento no Museu do Arquivo Nacional de Washington, onde pode ser visto numa caixa de vidro à prova de bala com gás argônio estabilizador.

Mas o documento desbotou quase a ponto de se tornar ilegível, e os estudiosos agora têm de buscar outras versões de 1776. Allen diz que, embora estas versões mostrem sutis variações na pontuação e nas letras capitulares, o objetivo dos fundadores é claro: não há nenhum ponto depois de "busca da felicidade".

Original. O ponto não aparece no esboço rudimentar do suposto original de Jefferson (guardado na Biblioteca do Congresso), ou na ampliação encomendada pelo Congresso à gráfica de John Dunlap de Filadélfia, no dia 4 de julho. Tampouco aparece na versão que foi copiada nos documentos oficiais do Congresso, conhecida como "diário corrigido", em meados de julho.

Segundo os arquivos históricos, o pergaminho de Matlack foi assinado em 2 de agosto, após ser comparado aos textos originais, o que, na opinião de Allen, torna improvável que tenha contido um ponto depois de "busca da felicidade.

Os defensores do ponto têm argumentos a seu favor. O sinal aparece em algumas das primeiras impressões não oficiais e oficiais, até mesmo na ampliação que o Congresso encomendou a uma gráfica de Baltimore para ser distribuída aos Estados.

Fatidicamente, também aparece com clareza na chapa de cobre de 1823, criada pelo gravurista William Stone, como réplica do pergaminho original que já começava a desbotar tornando-se ilegível. Há muito tempo, pressupõe-se que a placa de cobre, que Stone levou três anos para fazer, seja uma cópia precisa e tornou-se a base da maioria das modernas reproduções, até mesmo a que aparece no dia 4 de julho desde 1922, no jornal The New York Times.

Allen, que analisou as variações em mais de 70 versões da Declaração da Independência criadas entre 1776 e 1823, argumenta que o pergaminho já estava "consideravelmente ilegível" na época em que Stone começou seu trabalho. Ao se deparar com um trecho impossível de ler, ela afirma, provavelmente o artista consultou outras versões do documento, entre elas algumas com o ponto que faltava.

Jack P. Greene, um historiador da Revolução Americana da Brown University, definiu o estudo de Allen "um trabalho de detetive consideravelmente convincente". Mas, em última análise, o debate sobre a correção ou não do ponto, está sendo reduzido à tinta desbotada do pergaminho de Matlack.

Além disso, afirmam alguns especialistas em manuscritos, há imagens de alta resolução fornecidas pelo Arquivo que mostram pouca evidência de um ponto. Em um memorando enviado ao Arquivo Nacional, James P. McClure, editor geral dos Documentos de Thomas Jefferson, afirmou que o ponto muito fraco depois de "busca da felicidade" se assemelha a outros sinais do pergaminho que foram aceitos como vírgulas, e não como os pontos óbvios no final de outras sentenças.

Talvez haja outras imagens mais nítidas para analisar. Esta pesquisa por imagens talvez não seja conclusiva , ou mostre que Allen está errada, mas ela não exclui a possibilidade.

"Está havendo uma discussão sobre o valor do governo, e ela está relacionada aos documentos de nossa fundação", afirmou. "Precisamos conhecer sem possibilidade de engano o que eles contêm."/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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