Só jovens podem salvar o Velho Continente

Manifestos de idosos não garantirão futuro da Europa, acuada pela falta de unidade econômica e pelo avanço de movimentos contra a política tradicional

TIMOTHY, GARTON ASH, ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2014 | 02h02

Um estudante italiano chamado Mario me disse que tinha ficado furioso comigo. Ficou irritado com um artigo que escrevi após as eleições europeias de maio, quando afirmei que a escolha de Jean-Claude Juncker para a presidência da Comissão Europeia era a resposta errada ao descontentamento que prevalece em todo o continente que foi revelado nessas eleições.

O projeto europeu não será salvo sem um envolvimento mais ativo de Mario e os seus contemporâneos, a geração do programa de intercâmbio Erasmus e da companhia de voos a baixo custo EasyJet. Naturalmente, o socorro também exige boas medidas políticas vindas de cima. Mas o Super Mario - Mario Draghi, diretor do Banco Central Europeu, não Balotelli, o futebolista do Instagram - não consegue resolver tudo sozinho, mesmo com mais de 1 trilhão no seu balancete. Ele necessita do jovem Mario também.

Jamais vivi um momento de tamanho pessimismo intelectual sobre o futuro da UE entre aqueles (incluindo eu próprio) que são seus ardentes defensores. Existem três fortes razões para esse pessimismo. Em primeiro lugar, a zona do euro. Loukas Tsoukalis, especialista pró-europeu muito bem informado, observou que "o projeto estava errado e, do mesmo modo, a seleção dos seus membros". Muitas economias completamente diversas foram atreladas a uma moeda comum sem um tesouro comum. Essas falhas fundamentais de projeto foram exacerbadas por políticas de austeridade encabeçadas pela Alemanha que subestimaram as diferenças entre as culturas econômicas nacionais e a necessidade de mais investimento.

Em segundo lugar, a política. Eleição após eleição, sucessivas pesquisas de opinião têm revelado que os eleitores europeus estão profundamente desiludidos com a política atual e com as elites políticas. O que se expressa tanto numa grande apatia como no maior número de votos para partidos contrários ao establishment, de todas as cores - desde o Jobbik na Hungria e a Frente Nacional na França, passando pelo UKIP na Grã-Bretanha, a agremiação alemã Alternativa para a Alemanha, até o movimento Cinco Estrelas da Itália, o Podemos na Espanha e o Syriza na Grécia.

Pouco poder. É isso que observamos no âmbito dos Estados-membros da UE e fica muito mais patente no caso das instituições europeias. Bruxelas tornou-se o exemplo das elites distantes. Imagens de TV das cúpulas europeias nos mostram sempre homens de meia-idade entrando e saindo de enormes carros pretos. Apesar das eleições diretas para a UE e um maior poder do Parlamento Europeu, a percepção de alguma representação popular é escassa. E não há nenhum teatro político pan-europeu. Menos de 500.000 europeus assistiram a algum dos três debates transmitidos pela televisão entre os principais candidatos dos partidos políticos europeus para o posto de presidente da Comissão Europeia, ao passo que mais de 67 milhões de americanos assistiram ao primeiro debate entre os candidatos presidenciais Barack Obama e Mitt Romney em 2012.

Isso me leva ao terceiro motivo desse pessimismo. Há uma profusão de manifestos, planos e livros destinados a salvar a UE, mas muitos são escritos por pessoas do lado errado, com mais de 50 anos. Os apelos no sentido de mais "liderança" emanam de dirigentes aposentados, insinuando que tudo era melhor na sua época.

Vi poucas propostas vindas de jovens como Mario. O que é estranho porque ele faz parte da primeira geração a ter desfrutado de uma Europa como espaço único de liberdade, de Lisboa a Tallin e Atenas, até Edimburgo. Quando pedi sugestões para essa coluna no Twitter, alguém retrucou: "faça referência aos bebês do programa Erasmus!". E Dan Nolan acrescentou: "Erasmus obrigatório para todos", fazendo um elo com entrevista com Umberto Eco, em que o grande sábio afirmou que o programa de intercâmbio universitário Erasmus "criou a primeira geração de jovens europeus".

Chamo isso de revolução sexual: um jovem catalão encontra uma garota flamenga; eles se apaixonam, casam-se e se tornam europeus, como também seus filhos. A ideia do Erasmus deveria ser compulsória - não só para estudantes, mas também para motoristas, encanadores e outros trabalhadores!.

Liberdade. O que faria exatamente faria o padre católico do século 16 Desiderio Erasmo de Roterdã ao se tornar sinônimo de revolução sexual eu não sei, mas há alguma verdade nisso. Existe uma Europa cotidiana, viva, com uma integração transnacional. Nas pesquisas que compõem o Eurobarometer (série de sondagens de opinião pública realizada em toda a Europa em nome da Comissão Europeia), a resposta mais frequente à pergunta "o que a UE significa para você?" é "a liberdade de viajar, estudar e trabalhar em qualquer parte da União Europeia".

Embora aqueles que "não confiam" na UE superem em número os que acreditam numa proporção de dois para um, quanto mais jovens os indagados maior é o nível de confiança. Mas os que estão entre 15 e 24 anos são apenas 46%. Um a cada dois jovens na Grécia e Espanha está desempregado e esses jovens, com razão, indagam "o que a Europa tem feito em meu favor ultimamente?". Entretanto, há muitos jovens europeus - incluindo o grupo dos que nasceram após 1989 no leste e no centro da Europa - que se beneficiaram muito do projeto europeu. Mas dificilmente ouvimos suas impressões sobre a Europa. Acredito que, em parte, isso ocorre exatamente porque eles já têm a Europa que gerações anteriores aspiravam. Eles gostam da Europa, mas ela não é a sua grande causa ou sonho. Pelo contrário, eles estão extremamente interessados em outros assuntos e lugares: meio ambiente, igualdade sexual, pobreza global, direitos dos animais, liberdade online, mudança climática, China, África.

Se as liberdades básicas que valorizam na UE fossem repentinamente revogadas, com certeza eles se mobilizariam para defendê-las - mas o declínio da Europa, se ocorrer, provavelmente não acarretará uma mobilização importante. As instituições permanecerão, mas gradativamente serão esvaziadas como as do Império Romano. Talvez não tenhamos um sinal de alarme suficientemente dramático antes que seja tarde demais. Para alguns europeus do leste, Vladimir Putin é esse sinal de alerta, mas aparentemente não é o caso para muitos europeus ocidentais.

Acredito também que nós, europeus de mais idade, não perguntamos com frequência e a necessária insistência que tipo de Europa esses jovens desejam.

Recentemente, uma instituição acadêmica europeia convidou-me para saber se eu poderia participar da formulação de uma nova versão da Declaração Shuman, proposta precursora, de 1950, dos primeiros passos na direção da atual União Europeia. Respondi que achava melhor convidarmos os nascidos após 1989, a geração Erasmus. A última notícia que tive a respeito é que a instituição pretendia convidar um grupo de ex-chefes de Estado europeus para elaborar um projeto para a declaração.

Bem, boa sorte. Mais uma igual a que temos é só o que precisamos. Portanto, estou grato ao jovem Mario por se preocupar tanto a ponto de ficar furioso comigo. Vamos meu jovem, enraiveça. Fique furioso conosco. Mas mude a Europa. Ela precisa. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD

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