Yannis Behrakis/Reuters
Yannis Behrakis/Reuters

'Só restou um poder: o Exército'

Candidato opositor diz que 'o governo já caiu' e agora cabe aos militares conduzir o país a uma transição democrática

Lourival Sant'Anna, enviado especial ao Cairo,

11 de fevereiro de 2011 | 03h19

O presidente Hosni Mubarak abriu mão de todos os seus poderes, mas o Exército ainda precisa deixar isso claro para o povo egípcio. Essa é a interpretação do ex-deputado e possível candidato a presidente Hamdeen Sabahy. "Acho que ele deixou o poder, mas não deu satisfação ao povo egípcio", disse ao Estado Sabahy, que foi deputado independente por duas vezes, em 2000 e em 2005. "O Exército precisa fazer um novo pronunciamento assegurando as conquistas dos manifestantes."

Veja também:

especialInfográfico: A lenta agonia de Hosni Mubarak

som TV Estadão: Veja imagens dos protestos na praça Tahrir

documento Artigo: De que lado está o Exército egípcio?

blog Radar Global: Personagens, curiosidades e análises da crise

Em dezembro do ano passado, Sabahy decidiu boicotar a eleição na tarde da votação, quando, segundo ele, ficou claro que ela seria fraudada. Desde o ano passado, o nome desse jornalista de 56 anos tem crescido como o candidato a presidente dos jovens - os mesmos que lideram a chamada "revolução" das duas últimas semanas no Egito.

O que o sr. achou do discurso de Mubarak?

Acho que ele deixou o poder, mas não deu satisfação ao povo. Neste momento todos os egípcios estão deprimidos, porque ele não disse claramente, mas ele se retirou. Agora, o Exército precisa fazer um novo pronunciamento assegurando as conquistas dos manifestantes e mostrando que Mubarak não tem mais nenhuma autoridade, só é presidente formalmente. O Exército precisa formar uma comissão militar e civil, para conduzir a transição.

Não parece ser essa a posição do vice-presidente Omar Suleiman, que discursou em seguida.

Não consigo ver o que Suleiman está pensando. Mas agora o povo precisa de uma posição do Exército, não de Suleiman. O Estado egípcio agora só tem um poder: o Exército.

Pode-se confiar nos militares, de que apenas farão a transição, e não ficarão por outros 30 anos no poder?

Com certeza, sob uma condição: que haja uma composição entre militares e civis. Os militares não podem governar sozinhos.

Quem seriam esses civis?

Não importa. Eles só têm de ser egípcios honestos, respeitáveis.

Há condições para a realização de eleição presidencial em setembro, conforme previsto?

Sim, em três meses podem ser realizadas eleições para um novo Parlamento, e dentro de seis meses, para presidente.

Esse novo Parlamento terá poderes constituintes?

O novo Parlamento poderá escrever uma nova Constituição. Por agora, é necessário emendar apenas de 3 a 10 artigos da Constituição, no máximo, para realizar eleições livres e justas.

Quee papel os militares devem assumir a partir de agora na política egípcia?

Um papel semelhante ao que eles têm na Turquia: salvaguardar o cumprimento da Constituição e manter a ordem, além de proteger as fronteiras. Imaginamos um sistema semelhante ao turco, com um presidente como chefe de Estado, que não governa, e um primeiro-ministro encarregado de governar. O povo poderá eleger um presidente militar, se quiser, desde que ele fique no máximo por dois mandatos consecutivos de cinco anos. O primeiro-ministro deve necessariamente ser civil.

Por que o sr. não foi na reunião com Suleiman no domingo?

Ele me convidou duas vezes, mas preferi não aparecer na TV à mesa com corruptos.

 

 
Tudo o que sabemos sobre:
hamdeenexércitomubarakegito

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.