Só Trinidad e Tobago assina declaração final

Fórmula evitou que reunião de 34 líderes do continente terminasse sem documento oficial; países da Alba foram responsáveis pelas divergências

Denise Chrispim Marin, O Estadao de S.Paulo

20 de abril de 2009 | 00h00

A 5ª Cúpula das Américas terminou ontem com uma curiosa solução diplomática para a falta de unanimidade sobre o documento final. Os chefes de Estado presentes passaram ao primeiro-ministro de Trinidad e Tobago, Patrick Manning, a atribuição de assinar a Declaração de Compromisso de Port of Spain. Nos debates de ontem, a Venezuela e seus aliados da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba) concordaram com essa solução, que deixou latente os conflitos em torno de Cuba e da crise econômica global. Com essa iniciativa, os 34 líderes evitaram que, pela primeira vez, a Cúpula das Américas fosse encerrada sem a divulgação de um texto de consenso - ato que marcaria a desintegração desse fórum de diálogo entre latino-americanos e caribenhos, de um lado, e EUA e Canadá, de outro. Nem mesmo na cúpula anterior, em Mar del Plata, na Argentina, a decisão de acabar com as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) impediu a assinatura de um documento final. Em entrevista à imprensa, ao final do encontro, Manning disse que houve "consenso" sobre a aprovação da declaração - de caráter insosso e centrado em questões sociais, de energia e de meio ambiente. Segundo ele, porém, não se alcançou "unanimidade" sobre seu conteúdo durante a cúpula, que se estendeu por quase três dias. A foto oficial que marcaria o final do encontro estampou a falta de sintonia entre os 34 países. Os chefes de Estado chegaram, um a um, à escadaria do Centro Diplomático. O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e o primeiro-ministro de Trinidad e Tobago foram os primeiros a se acomodar diante da escada. Mas Evo Morales, da Bolívia, somente passou pelo local. Barack Obama, dos EUA, acenou para os colegas, em despedida, e se encaminhou para a sua última entrevista coletiva.Hugo Chávez, da Venezuela, nem se aproximou da escadaria e foi embora. Rafael Correa, do Equador, e Felipe Calderón, do México, chegaram ao local depois que muitos chefes de Estado já haviam ido embora. O desajuste foi marcado especialmente pelos países da Alba presentes ao encontro - Venezuela, Bolívia, Honduras, Nicarágua, Equador, Dominica - sobre temas sensíveis, como o fim do embargo econômico dos EUA a Cuba e sua reinserção no espaço interamericano. CUBANo início da semana passada, a Venezuela já havia deixado evidente a sua insatisfação com a ausência de Cuba do texto e ameaçado vetar sua aprovação. Entretanto, nos oito meses de negociação, nem o governo de Hugo Chávez nem o de seus aliados da Alba haviam pleiteado formalmente a introdução do tema, segundo diplomatas brasileiros. A Bolívia reclamou da menção aos biocombustíveis, mas acabou satisfeita com uma ressalva registrada no rodapé sobre seus riscos à produção de alimentos. Até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva incluiu-se entre os insatisfeitos com a maneira pela qual o texto abordou a crise econômica. Lula criticou a realização de uma reunião entre ministros da Fazenda dos 34 países apenas em 2010. Nesse caso, os 34 chefes de Estado concordaram com a tentativa de antecipar esse encontro para julho deste ano, mas o texto final não foi alterado, nem mesmo nesse tópico menos polêmico.

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