Noel Celis/AFP
Noel Celis/AFP

Sob a sombra dos protestos de Hong Kong, revolução na China chega aos 70 anos

Imagem de sucesso do regime vem cada vez mais sendo prejudicada pelos rebeldes pró-democracia de Hong Kong, movimento popular que Pequim não consegue domesticar 

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2019 | 16h00

HONGO KONG - A China celebra nesta terça-feira, 1º, 70 anos da revolução que mudou a história do país, que deixou de ser um lugar dominado por camponeses e se tornou a segunda maior economia do mundo, um mercado de 1,4 bilhão de consumidores e uma classe média de 550 milhões de pessoas. A imagem de sucesso do regime, porém, vem cada vez mais sendo prejudicada pelos rebeldes pró-democracia de Hong Kong, movimento popular que Pequim não consegue domesticar. 

O status de Hong Kong está ameaçado. À medida que o presidente dos EUA, Donald Trump, intensifica a guerra comercial contra a China, o valor de Hong Kong como centro comercial diminui. Enquanto os manifestantes que ocupam as ruas do território acusam Pequim de violar um acordo que deveria proteger as normas democráticas do território, seu status semiautônomo parece estar em dúvida.

Com o atrito entre China e EUA, alguns dizem que o espaço para um lugar como Hong Kong está desaparecendo. “Veremos uma Hong Kong diferente”, disse Lynette Ong, da Universidade de Toronto. “A própria razão da existência de Hong Kong – o estado de direito, as instituições, o respeito ao Judiciário, a burocracia – tudo se deteriorou.”

Os protestos são um desafio aberto às comemorações dos 70 anos de comunismo chinês. Manifestações ainda maiores em Hong Kong, com o objetivo de ofuscar as festividades em Pequim, são esperadas nos próximos dias – incluindo novos confrontos com a polícia.

Há 22 anos, quando o Reino Unido devolveu sua antiga colônia à China, prevaleceu um otimismo cauteloso de que o status especial de Hong Kong perduraria. Pequim prometeu aderir a uma doutrina conhecida como “um país, dois sistemas” e afirmou que sua “meta final” era o sufrágio universal no território. As liberdades seriam protegidas pelos próximos 50 anos.

Pequim esperava que a prosperidade de Hong Kong validasse o modo de governança da China, no qual os políticos são uma distração para o progresso econômico. O partido governaria Hong Kong por meio de uma leal elite, enquanto explorava os mercados de capitais e as fileiras profissionais do território para avançar nos planos de desenvolvimento da China.

O sucesso em Hong Kong facilitaria a reunificação com Taiwan, a ilha autônoma que a China reivindica como parte de seu território. Muitos ocidentais expressaram esperança de que Hong Kong ajudasse a mudar a China, servindo como canal para a livre empresa e ideias democráticas. Alguns sustentaram que o comércio global seria decisivo. O “engajamento construtivo” amarraria as fortunas chinesas aos mercados mundiais e isso exigiria liberdade.

Por um tempo, as esperanças concorrentes – as do partido e do Ocidente – coexistiram em um delicado cabo de guerra, permitindo que Hong Kong prosperasse. Mas Xi Jinping tinha outras ideias. Depois de assumir, em 2013, o novo presidente chinês realizou uma mudança profunda no envolvimento de seu país com o mundo. Ele usou a crescente influência econômica da China como impulso para uma política externa cada vez mais poderosa.

Sob sua liderança, a China buscou dominar novos mercados, projetou poder em todo o mundo e redobrou o controle do Partido Comunista sobre a esfera política. Ele esmagou a dissidência enquanto comandava a prisão em massa de minorias uigures na região oeste de Xinjiang. Ele consagrou o pensamento de Xi Jinping como ideologia partidária, desprezando a democracia e a economia liberalizada como decadentes exportações ocidentais.

A vigilância de Xi contra ameaças à autoridade do partido também parece ter alterado a avaliação de Pequim sobre Hong Kong. Seu valor comercial foi agora descontado pelo seu potencial como um viveiro de perigosas expressões livres e uma base de subversão contra o domínio do partido no continente.

“Xi Jinping reforçou seu controle sobre Hong Kong”, disse Sally Chan, de 30 anos, funcionária de um banco de investimento, enquanto caminhava em direção a escritórios do governo durante as manifestações de domingo. “O governo negligencia o estado de direito agora. A brutalidade policial está em todo lugar. Temos de ter cuidado para não revelar nossa identidade à polícia."

O valor de Hong Kong também foi reexaminado após a crise financeira global de 2008. Os banqueiros ocidentais - alguns com sede em Hong Kong - e funcionários de Washington haviam ensinado há muito tempo a Pequim sobre a necessidade de a China suspender as restrições à movimentação de dinheiro. Mas a crise expôs as deficiências do sistema ocidental.

“A atual liderança de Xi Jinping está muito menos interessada em aprender as lições sobre capitalismo de Hong Kong”, disse Rana Mitter, diretor do China Center da Universidade de Oxford. “Hong Kong é visto como um lugar mais anômalo e problemático que precisa ser resolvido. Não é mais visto como a galinha dos ovos de ouro”.

Parte da mudança refletia a realidade de que Hong Kong não era mais a principal porta de entrada para a China. A China estava construindo redes rodoviárias e ferroviárias enquanto modernizava seus portos, eliminando a necessidade de embarques por Hong Kong. Hoje, Xangai, Shenzhen, Ningbo e Guangzhou lidam com mais tráfego de contêineres do que Hong Kong, de acordo com o Conselho de Navegação Mundial.

Em 2009, o valor em dólar das ofertas públicas iniciais para empresas chinesas estatais na bolsa de Xangai era maior do que as de Hong Kong, de acordo com a Dealogic, uma empresa de dados financeiros. “Hong Kong não é mais decisiva”, disse V-nee Yeh, presidente da Cheetah Investment Management. “Xangai se tornará o mais importante centro financeiro de Hong Kong.”

A economia de Hong Kong já está se contraindo em meio a temores de uma recessão total. A Fitch Ratings rebaixou a avaliação de crédito de Hong Kong este mês devido à preocupação com o crescente papel da China nos assuntos da cidade. A Moody’s a seguiu, afirmando que “os protestos em andamento revelam uma erosão na força das instituições de Hong Kong” e “abalam os fundamentos de crédito de Hong Kong, prejudicando sua atratividade como centro comercial e financeiro”.

“Todo mundo é muito claro sobre como é o sistema da China”, disse Yoyo Chan, estudante de 17 anos. “Coisas cruéis podem acontecer lá, como campos de concentração, e tudo isso é assustador. Mesmo antes da redação da lei de extradição, alguns livreiros de Hong Kong haviam desaparecido na China. Em um lugar como Hong Kong, onde temos liberdade de expressão, não queremos perder as coisas vitais para nós”.

No mundo dos negócios, a percepção de que Pequim se declarou descaradamente está disseminando temores de que a identidade de Hong Kong como um terreno neutro esteja em perigo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.