Adriana Loureiro Fernandez/NYT
Adriana Loureiro Fernandez/NYT

Venezuela usa forças de segurança contra doentes na repressão ao coronavírus

Governo Maduro tem colocado imigrantes em centros de isolamento insalubres e os forçado a tomar remédios mesmo sem sintomas da covid-19

Anatoly Kurmanaev, Isayen Herrera e Sheyla Urdanet, The New York Times

20 de agosto de 2020 | 04h00
Atualizado 20 de agosto de 2020 | 14h43

CARACAS - Autoridades venezuelanas estão acusando pessoas que podem ter entrado em contato com o coronavírus como “bioterroristas” e instando seus vizinhos a denunciá-los. O governo está prendendo e intimidando médicos e especialistas que questionam as políticas do presidente Nicolás Maduro sobre o vírus.

O chavismo também está confinando milhares de venezuelanos que estão voltando para casa depois de perder empregos no exterior, mantendo-os em centros de contenção improvisados com medo de infectarem mais pessoas.

O presidente Nicolás Maduro tem enfrentado o coronavírus tanto quanto qualquer ameaça interna ao seu governo: mobilizando contra ele seu aparato de segurança repressivo.

Em hotéis confiscados, escolas abandonadas e estações de ônibus isoladas, os venezuelanos que voltam de outros países da América Latina estão sendo forçados a ficar em quartos lotados com comida, água ou máscaras limitadas. E ficam sob guarda militar por semanas ou meses para testes de coronavírus ou tratamento com medicamentos não comprovados, de acordo com entrevistas com os detidos, vídeos que eles gravaram em seus celulares e documentos do governo.

“Eles nos disseram que estamos contaminados, que somos culpados de infectar o país”, disse Javier Aristizabal, enfermeiro da capital, Caracas, que disse ter passado 70 dias em centros após retornar da Colômbia em março.

Em uma grande cidade, San Cristóbal, chavistas estão marcando com placas as casas de famílias suspeitas de estarem com covid-19 e as ameaçando de detenção, disseram os moradores. Em outra cidade, Maracaibo, a polícia patrulha as ruas em busca de venezuelanos que voltaram ao país sem aprovação oficial. Políticos da oposição cujos constituintes estão com suspeita de covid-19 dizem que estão ameaçados de processo.

“Este é o único país no mundo onde ter covid é crime”, disse Sergio Hidalgo, um ativista da oposição venezuelana que disse ter sintomas da doença, e encontrou policiais em sua porta e funcionários do governo acusando-o de infectar a comunidade.

Enquanto a pandemia atingia os países vizinhos, sobrecarregando as redes de saúde muito mais preparadas do que o sistema colapsado da Venezuela, Maduro adotou uma abordagem linha-dura, tratando o coronavírus como uma ameaça à segurança nacional que poderia desestabilizar sua nação falida e colocar em risco seu controle do poder.

“A pandemia claramente representa uma ameaça ao governo porque mostra a precariedade de seus recursos”, disse John Magdaleno, um cientista político venezuelano em Caracas. “A prioridade não é lidar com a pandemia. É a sobrevivência política de curto prazo.”

“Quando as pessoas ficam doentes, pensam que têm um problema legal ou policial, como se fossem delinquentes”, disse Julio Castro, médico venezuelano que assessora o Congresso controlado pela oposição sobre saúde. “Então eles preferem se esconder.”

Em seus sete anos no poder, Maduro ajudou no colapso do sistema de saúde da Venezuela, a destruição da economia nacional e um aumento acentuado do isolamento internacional do país.

Com recursos cada vez mais escassos para preparar os hospitais destruídos do país ou ajudar sua população já empobrecida a sobreviver à crise, Maduro recorreu a centros de detenção básicos, repressão e coerção para tentar impedir o vírus de dominar o país, disseram analistas políticos.

A abordagem do governo pode manter mais pessoas em casa e retardar a propagação do vírus, mas também desencoraja aqueles que podem estar doentes de procurar ajuda. Isso, por sua vez, está tornando a pandemia ainda mais difícil de combater, disseram os médicos na Venezuela.

A verdadeira extensão da pandemia na Venezuela, um país que há anos deixou de divulgar estatísticas de saúde tão básicas quanto a mortalidade infantil, é quase impossível de determinar.

Mas com 20 funcionários de alto escalão relatando que seus testes foram positivos e alguns médicos alertando que seus hospitais estavam quase lotados, a situação pode ser muito pior do que sugere a contagem oficial de 288 mortes em um país com cerca de 30 milhões de habitantes.

Os imigrantes venezuelanos que voltam para casa depois de perder seus empregos no exterior na sequência da pandemia são os alvos específicos.

Segundo o governo colombiano, cerca de 95.000 venezuelanos voltaram para seu país desde março e 42.000 aguardam sua vez ao longo da fronteira.

Apenas 1.200 têm permissão para retornar a cada semana através da travessia da fronteira principal, sob as diretrizes do governo venezuelano, forçando outros a esperar meses em acampamentos improvisados. Aqueles que usam trilhas ilegais para cruzar a fronteira terrestre porosa são rotulados publicamente como ameaças.

No Twitter, as Forças Armadas da Venezuela instaram a população a denunciar os chamados “bioterroristas”, referindo-se aos venezuelanos que escaparam dos controles de fronteira do governo e voltaram para casa.

O New York Times entrevistou sete venezuelanos detidos em centros de contenção. Vários disseram que foram amontoados em quartos sem camas, sem comida quente, sem janelas ou água potável suficiente.

“Você não podia pedir ajuda a ninguém, porque a única coisa que você conseguia era abuso”, disse Aristizabal, o enfermeiro que foi transportado entre vários centros depois que voltou de uma visita à sua mãe na Colômbia.

Durante sua detenção, Aristizabal disse que às vezes dormia no chão - no asfalto de uma rodoviária ou no chão de um quarto de hotel sem janelas que dividia com outras cinco pessoas.

Alguns disseram que foram detidos com bebês de apenas um ano, sem nenhuma providência especial para as crianças. Outros disseram que foram obrigados a tomar os medicamentos previstos no protocolo oficial da Venezuela para o tratamento de qualquer pessoa que tenha, ou seja suspeita de ter, o coronavírus, mesmo sem apresentar nenhum sintoma.

Os medicamentos listados nas diretrizes do governo não foram comprovados para o tratamento do coronavírus e podem ter consequências perigosas. Os tratamentos incluem hidroxicloroquina, que a Food and Drug Administration alertou que pode causar anormalidades perigosas do ritmo cardíaco em pacientes com coronavírus, e um medicamento antiparasitário chamado ivermectina, que a Organização Mundial de Saúde (OMS) disse que não deve ser usado para tratar a doença.

Vídeos feitos por venezuelanos em centros de confinamento mostraram condições insalubres. Várias pessoas disseram que não estavam recebendo tratamento para doenças pré-existentes, receberam uma única máscara para a estadia e não podiam praticar o distanciamento social.

Mas a pior parte, eles disseram, é que não tinham ideia de quanto tempo ficariam presos.

Em um vídeo publicado por um legislador da oposição, cinco homens e mulheres mais velhos, envoltos em cobertores sujos, são mostrados amontoados em uma pequena sala sem janelas com cadeiras em ruínas e um beliche sem colchões no que eles disseram ser um posto de primeiros socorros do governo em Caracas.

“Por favor, me tire daqui”, disse um homem visivelmente perturbado. "Estou morrendo aqui. Eu me sinto pior a cada dia.”

A repressão de Maduro contra o retorno de imigrantes venezuelanos contrasta com a liberdade desfrutada pela elite governante do país, que está resistindo ao bloqueio em ilhas caribenhas fechadas, mansões nas encostas e restaurantes luxuosos apenas para convidados.

Os principais representantes do partido que contraíram o coronavírus procuram tratamento em clínicas privadas ou no confiável hospital militar de Caracas. Por alguns milhares de dólares, os viajantes ricos que retornam podem pular a quarentena obrigatória e ir direto para casa.

SUVs luxuosos à prova de balas sem placas passam pelos bairros de luxo de Caracas à noite, enquanto a alguns quilômetros de distância, milícias armadas pró-governo impõe o bloqueio nas comunidades mais pobres.

Maduro afirma que sua rápida resposta - ele aplicou o lockdown no país em 17 de março, logo após a confirmação dos dois primeiros casos de coronavírus - evitou a devastação sofrida pelos países vizinhos.

Oficialmente, a Venezuela possui uma das taxas de infecção mais baixas da região. Cinco meses após a detecção do vírus, o número de mortes diárias, segundo o governo, nunca passou de 12.

“Você recebe um cuidado que é único no mundo, cuidado humano, amoroso, cristão”, disse Maduro em um discurso nacional em 14 de agosto.

Mas especialistas em saúde dizem que os baixos números oficiais são o resultado de taxas de teste extremamente baixas. Os testes precisos do coronavírus são escassos e levam semanas para serem processados em um dos dois laboratórios aprovados pelo governo, segundo oito médicos de três estados venezuelanos entrevistados. Os médicos não quiseram revelar seus nomes por medo de perseguição governamental.

A maioria dos pacientes com sintomas de covid-19 nunca é testada ou morre antes de receber seus resultados, então eles nunca são incluídos nas estatísticas oficiais, disseram os médicos.

No estado de Zulia, no oeste do país, o governo disse que 70 pessoas morreram de covid-19 na segunda semana de agosto. Mas um grupo de médicos que rastreia a mortalidade no estado disse que em um único hospital - o maior de Zulia - 294 pacientes morreram com sintomas de coronavírus até então.

Dias antes de a Venezuela confirmar seu primeiro caso de coronavírus, o governador de Zulia, Omar Prieto, disse em um discurso público que ordenou que a contra-espionagem militar questionasse um médico proeminente por alertar sobre possíveis infecções.

“Esta é uma questão de segurança nacional e este homem deve ser investigado”, disse Prieto sobre o médico, Freddy Pachano. A capital de Zulia, Maracaibo, desde então se tornou o epicentro da pandemia da Venezuela.

Um crematório em Maracaibo passou da sua média usual de cinco corpos por dia para 20 corpos em junho, antes de seu forno quebrar por excesso de trabalho, segundo o gerente da instalação, que falou sob condição de anonimato por temer represálias.

Autoridades de Maracaibo abriram uma vala comum no cemitério municipal. Prieto, o governador, testou positivo para coronavírus, mas se recuperou em uma clínica particular. O Dr. Pachano, que tentou alertar sobre a crise iminente, fugiu para a Colômbia para evitar a prisão.

“Não é possível tomar medidas adequadas para combater a doença se você realmente não sabe o que está acontecendo”, disse ele.

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