Hasan Jamali/AP
Hasan Jamali/AP

Sob apoio militar saudita, Bahrein reprime protesto

Desde o início da revolta, 15 pessoas morreram;Obama telefona a reis bareinita e saudita para pedir moderação

, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2011 | 00h00

MANAMA

Forças do Bahrein, apoiadas por tropas enviadas pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes, reprimiram ontem manifestantes com uso de gás lacrimogêneo e o apoio de helicópteros, retirando centenas de pessoas que estavam acampadas numa praça que se tornou símbolo dos protestos da maioria xiita contra a monarquia sunita. A violenta repressão provocou uma rara crítica do aliado Estados Unidos.

O presidente americano, Barack Obama, telefonou para os reis da Arábia Saudita e do Bahrein - que abriga a 5.ª Frota da Marinha dos EUA -, manifestou sua preocupação e pediu calma. A secretária de Estado Hillary Clinton declarou que o Bahrein e os aliados do Golfo que enviaram soldados para apoiar a família real sunita estão no caminho errado. "Achamos que o que está ocorrendo no Bahrein é alarmante", disse Hillary.

Desde o início dos confrontos - em 14 de fevereiro, quando membros da maioria xiita saíram às ruas para pedir reformas e a demissão do governo - pelo menos 15 pessoas morreram, 11 manifestantes e 4 policiais, segundo a agência AFP.

Os xiitas, que representam mais de 60% da população do Bahrein, se dizem discriminados pelos sunitas. Movimentos pela queda da monarquia têm causado alarme entre os sunitas no Bahrein e na vizinha Arábia Saudita.

O Irã, país persa de maioria xiita, convocou ontem seu embaixador em Manama para protestar contra "o assassinato do povo do Bahrein por seu governo", indicou uma declaração publicada no site do governo de Teerã.

Um parlamentar de oposição disse que a repressão aos manifestantes equivale a uma declaração de guerra. "É uma guerra de aniquilação. Isso não acontece nem mesmo em guerras, e não é aceitável", disse Abdel Jalil Khalil, líder da bancada do partido governista Wefaq. "Eu os vi usando munição real."

Um protesto convocado pelo movimento juvenil, que lidera as manifestações na Praça Pérola, não ocorreu depois que um oficial militar apareceu na TV estatal anunciando a proibição de todas as marchas e aglomerações e decretou um toque de recolher entre 16 e 4 horas em toda a região da capital. Uma testemunha disse à agência Reuters que viu tanques e veículos blindados se dirigindo à Rua Budaya, onde o protesto seria realizado.

Helicópteros sobrevoaram ontem a Praça Pérola e a tropa de choque lançou bombas de gás lacrimogêneo ao avançar contra os manifestantes acampados. Os jovens reagiram com coquetéis molotov e se dispersaram quando foram atingidos por mais gás lacrimogêneo. Em cerca de duas horas a praça já estava vazia. Usando máscaras negras e armas semiautomáticas, os soldados também bloquearam várias ruas, incluindo o principal acesso ao bairro xiita de Sitra.

"Há tiros perto e longe. É uma guerra urbana", disse um morador que vive perto da Rodovia Budaya, no noroeste do Bahrein. / REUTERS e AFPM

PARA LEMBRAR

Discriminação é estopim de revolta xiita

No Bahrein, a população de maioria xiita sente-se discriminada pela elite sunita, cuja dinastia governa o país há mais de 200 anos. Os protestos começaram em 14 de fevereiro.

Inicialmente, temendo a repetição do que ocorreu na Tunísia e no Egito - cujos governantes foram depostos por levantes populares no início do ano -, o rei bareinita, Hamad bin Isa al-Khalifa, prometeu a criação de 20 mil novos empregos no país, um programa de construção de habitações populares, realizou reformas no governo, libertou presos políticos xiitas e enviou um cheque de US$ 2,4 mil para cada família. No entanto, sem conseguir conter a onda de protestos no país, a monarquia optou pela violência.

Na segunda-feira, a vizinha Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos enviaram tropas ao Bahrein para ajudar na repressão aos manifestantes xiitas.

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