Alice Martins/W. POST
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Mulheres do EI impõem ditadura do califado a refugiadas na Síria

Residentes e autoridades chamam o campo de Al-Hol, norte da Síria, de reino do medo

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2019 | 08h00
Atualizado 05 de setembro de 2019 | 15h57

AL-HOL, SÍRIA - A mulher disse aos trabalhadores da ajuda humanitária que tinha sido um acidente. Sua filha de 14 anos havia escorregado e caído, ela disse. Não havia nada que eles poderiam ter feito.

Mas o corpo revelou uma história diferente. Os médicos disseram que o pescoço da menina estava quebrado em três lugares e ela morreu de olhos abertos, mordendo os lábios e lutando para respirar. Fotos e registros médicos sugeriram que ela havia sido espancada no torso e depois estrangulada. Foi assassinato, não um passo em falso.

A adolescente, uma garota do Azerbaijão que vivera até o início deste ano com sua mãe sob o califado do Estado Islâmico (EI), se deparou com os adeptos da organização que vieram nos últimos meses para dominar partes do campo Al-Hol, no nordeste da Síria, de acordo com os outros moradores.

Eles disseram que ela sugeriu dispensar o niqab negro que cobre o rosto das mulheres muçulmanas ultraconservadoras.

Meio ano após a derrota territorial do Estado Islâmico, a vasta expansão de tendas no campo de Al-Hol está se tornando um caldeirão de radicalização.

Cerca de 20 mil mulheres e 50 mil crianças que viveram sob o califado enfrentam lamentáveis condições no campo, que é operado e guardado por 400 soldados curdos com o apoio dos EUA.

Com os homens do EI presos em outro lugar, as mulheres dentro das cercas de Al-Hol estão retomando as restrições do grupo militante, impondo-as às consideradas ímpias com espancamentos e outras brutalidades e estendendo o que os residentes e as autoridades do campo chamam de reino do medo.

Vários guardas foram esfaqueados por mulheres que escondem facas de cozinha nas dobras das vestes. As mulheres são ameaçadas por entrar em contato com advogados que possam tirá-las do campo ou por conversar com outras pessoas de fora.

Uma mulher indonésia grávida foi assassinada, segundo autoridades médicas, aparentemente depois de falar com uma organização ocidental de mídia. Imagens de seu corpo sugerem que ela pode ter sido chicoteada.

“Está acontecendo à noite e nas sombras, mas ninguém informa quem o fez”, disse um membro sênior do departamento de inteligência do campo. “Elas têm medo umas das outras aqui.”

Raiva, violência e fanatismo em meio à miséria

Quatorze pessoas com conhecimento direto das condições do acampamento descreveram em entrevistas uma crescente raiva, a violência e o fanatismo em meio à miséria. Tais pessoas, incluindo residentes do campo, trabalhadores humanitários e autoridades curdas, falaram sob condição de anonimato por preocupações com a segurança.

Autoridades curdas de segurança, afiliadas às Forças Democráticas Sírias aliadas dos EUA, dizem que possuem os soldados para vigiar a instalação, e pouco mais. “Podemos conter as mulheres, mas não podemos controlar sua ideologia”, disse o oficial de inteligência.

Em um relatório no mês passado, o inspetor geral do Departamento de Defesa dos EUA, citando informações da coalizão liderada pelos EUA que combatem o EI, alertou que a incapacidade das Forças Democráticas Sírias (FDS) de fornecer mais do que “segurança mínima” no campo permitiu a disseminação “não contestada” da ideologia do EI lá.

Em alguns lugares, crianças, incluindo cerca de 20 mil nascidas no califado, são literalmente uma audiência cativa.

Perto de um portão do campo, os guardas recolheram armas de brinquedo caseiras e apetrechos do Estado Islâmico que as crianças fizeram para passar o tempo.

As réplicas de armas são feitas com canos de água e presas firmemente com fita adesiva. As bandeiras foram coloridas em detalhes meticulosos, com mãos limpas, mas inconfundivelmente infantis.

As condições estão desesperadoras no campo, erigido em uma encosta árida. O esgoto vazou para as tendas e os moradores bebem água de tanques que contêm vermes.

Muitas mulheres ainda não ficaram sabendo o que aconteceu com maridos ou filhos adolescentes quando foram levados pelas FDS que derrotaram o califado e agora os abrigam em vários campos e prisões.

Desde o início do ano, quando o campo acomodava menos de 10 mil pessoas, o Al-Hol aumentou dramaticamente. Muitas mulheres e crianças foram transferidas para o campo depois que a última fortaleza do EI na vila síria de Baghouz foi invadida pelas FDS, com apoio militar dos EUA.

Os moradores agora são segregados por nacionalidade. A maioria das seções abriga sírios e iraquianos, enquanto mais de 9 mil - entre eles os habitantes mais radicais do campo - estão escondidos atrás de cercas fechadas com correntes, em um local coberto  e bem guardado, conhecido como “Anexo”. Abriga árabes, asiáticos, africanos e europeus, entre outros.

Os guardas entram nessa zona com cautela. Uma emboscada no fim do mês passado deixou um deles com ossos quebrados.

“Eles podem fazer qualquer coisa com você aqui”, disse uma mulher europeia de 20 anos, seus olhos azuis acompanhando o que acontecia pelo acampamento, enquanto falava.

Punição para quem usar os trajes de maneira errada

Três residentes do campo disseram ter sido parados por mulheres que primeiro corrigiram seus trajes e depois ameaçaram que se repetissem o comportamento, seriam punidos.

O parente de uma mulher europeia confinada no Anexo com três filhos afirmou que ela vive sob medo. A mulher havia trocado de barraca várias vezes depois que um grupo de mulheres tunisinas e indonésias começaram a ameaçá-la ao saber que o advogado da família estava tentando levá-la para casa, segundo o parente.

Mas esta ameaça crescente não se limita ao Al-Hol. Os trabalhadores humanitários do campo menor de Al-Roj, a uma hora de distância, descrevem disputas frequentes entre iraquianos e outros estrangeiros.

Em um exemplo, uma mulher iraquiana foi impedida de se comunicar com os vizinhos depois que removeu o véu. Em outro, os filhos de supostos combatentes do Estado Islâmico tentaram enterrar vivo um jovem garoto iraquiano.

Habitantes de campo permanecem no limbo

À medida que as condições se deterioram, os habitantes permanecem no limbo. Algumas das mulheres querem retornar aos seus países de origem, mas poucos governos estrangeiros estão ansiosos para recuperá-las, temendo em parte o risco de que os seguidores do EI possam representar e que as evidências contra elas não possam se sustentar em juízo.

As FDS dizem que não se pode contar com a manutenção indefinida dos residentes no acampamento. Mas nem os Estados Unidos - que finalmente dominam essa parte da Síria - nem os aliados europeus e árabes avançaram em uma solução viável.

O Iraque ainda precisa repatriar dezenas de milhares de cidadãos, e outros governos estão retirando seus cidadãos rapidamente. Oito cidadãos americanos foram repatriados do campo para os Estados Unidos em junho. O presidente Donald Trump pediu aos países europeus que os tomem de volta e processem tais cidadãos.

Um oficial de inteligência europeu disse que a abordagem tinha de ser “pragmática” e “caso a caso”, acrescentando: “Teremos de estudar: com quem essa mulher foi casada? Que papel ela desempenhou no EI? Está realmente pronta para desistir da ideologia?”

Mas as agências de ajuda humanitária insistem que a comunidade internacional não tem esse tempo para fazer isso e citam os perigos que o Al-Hol agora representa para as crianças presas dentro dele.

Os trabalhadores humanitários da Save the Children, uma das maiores organizações que trabalham com crianças nos campos do nordeste da Síria, dizem que elas costumam mostrar sinais de trauma profundo. Meninos, em particular, podem ser agressivos. As meninas enfrentaram casamento precoce ou violência sexual.

Em um vídeo postado on-line em julho, várias mulheres, totalmente cobertas com véus e segurando a faixa em preto e branco do Estado Islâmico, disseram que estavam entregando uma mensagem de Al-Hol. “Irmãos”, uma delas insiste, “acendam o fogo da jihad e nos libertem dessas prisões”.

E então, dirigindo-se aos “inimigos de Deus”, ela diz: “Para você, mulheres dos mujahideen: você acha que estamos presas em seu campo podre. Mas somos uma bomba, ouça o tique taque. Apenas espere e veja”. / W. POST 

TRADUÇÃO DE CLÁUDIA BOZZO 

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