Pedro Portal/The Miami Herald/AP
Pedro Portal/The Miami Herald/AP

Sob cenário incerto, venezuelanos vão às urnas e ameaçam poder de Chávez

Especialistas não descartam hipótese de reações violentas com resultado que pode ser apertado nas eleições

Roberto Lameirinhas / ENVIADO ESPECIAL / CARACAS,

06 de outubro de 2012 | 22h08

CARACAS - A Venezuela vai às urnas no domingo para aquela que pode ser a mais disputada eleição presidencial desde 1998, quando o candidato Hugo Chávez - que se tornara conhecido por ter liderado uma fracassada tentativa de golpe seis anos antes - chegou ao poder. Chávez está na frente nas intenções de voto na maior parte das pesquisas até o fim de semana passado, a partir do qual a divulgação de sondagens se tornou proibida pela lei eleitoral.

 

Veja também:

linkPERFIL: O caudilho que dividiu um país

blog RADAR GLOBAL: Cinco razões para Chávez ganhar e perder a eleição

tabela ESPECIAL: Eleições presidenciais na Venezuela

 

No entanto, essas mesmas pesquisas indicavam uma tendência de crescimento da candidatura do opositor Henrique Capriles Radonski, o jovem governador de Miranda em torno do qual se reuniram todas as forças da oposição para levar adiante um único projeto: remover Chávez da cadeira presidencial.

 

Agências internacionais de análise de risco ainda apostavam, nos últimos dias de campanha, numa vitória por margem estreita do presidente.

 

Talvez como reflexo da redução das vantagens na pesquisas, Chávez e seus assessores mais próximos têm feito, em discursos e entrevistas destes últimos dias, raras admissões de falhas administrativas do governo bolivariano, seguidas de apelos ao fervor patriótico e revolucionário. "O que está em jogo aqui não é se você vai ficar duas horinhas sem luz, mas a independência e soberania da Venezuela, ameaçada pela ultradireita que quer voltar à presidência com o ‘majunche’ (insulto que pode ser traduzido como ‘imbecil’ e pelo qual os chavistas se referem a Capriles)", declarou na terça-feira Mario Silva, espécie de porta-voz televisivo do chavismo e apresentador da estatal Venezolana de Televisión (VTV).

 

"Uma vitória de Chávez por uma diferença incontestável manteria a situação política atual", afirma, sob condição de anonimato, um diplomata europeu estabelecido em Caracas. "Talvez, em razão de sua doença (um câncer pélvico detectado há mais de um ano, cujo prognóstico é mantido como segredo de Estado), ele tenha de nomear um vice-presidente capaz de levar adiante seu projeto socialista. Poderia ser (o chanceler) Nicolás Maduro, seu antigo camarada de armas Diosdado Cabello ou seu irmão Adán Chávez."

 

No caso de triunfo apertado de Capriles, diz a fonte, uma reação das massas chavistas - as mesmas que desceram os morros para frustrar a tentativa de golpe contra Chávez em 2002 - é um cenário possível. Segundo versões que circulam no país desde a chegada do líder ao poder, milicianos dos Círculos Bolivarianos estão ou podem rapidamente ser armados. Nesse cenário, Chávez poderia, caso obtenha o apoio de seus aliados em postos-chave das Forças Armadas, ficar tentado a não entregar o poder à oposição.

 

"Não creio que essa opção seja viável para Chávez, porque ela não está em suas mãos", diz o articulista Rubens Yanes, do jornal de Caracas El Universal. Um golpe causaria o isolamento internacional do país.

 

Na hipótese de vitória apertada de Chávez, os distúrbios poderiam vir de grupos antichavistas desconfiados da lisura do processo. Levando essa opção em conta, os chavistas têm exigido da oposição a garantia de que reconhecerão os resultados e não acirrarão os ânimos de seus partidários com denúncias de fraude.

 

Se Chávez vencer e, em razão de sua saúde, ficar incapacitado de exercer o cargo nos primeiros quatro anos do mandato de seis, a Constituição prevê que o vice-presidente - escolhido pelo presidente - assume o poder e uma nova eleição é convocada. Se a vacância ocorrer nos últimos dois anos, o vice exerce o cargo até o fim do mandato.

 

Já uma vitória por larga vantagem de Capriles tiraria Chávez do Palácio de Miraflores, mas não colocaria fim imediato no projeto bolivariano. "Há estruturas oficiais que os chavistas controlam com mão de ferro em vários Estados", explica Yanes. "O novo presidente não teria vida fácil com uma Assembleia Nacional com maioria do chavismo, que, por seu lado, infiltrou peças-chave no Tribunal Supremo de Justiça, na Procuradoria-Geral, no Banco Central, nas Forças Armadas e no Ministério Público."

 

De acordo com o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), 18.802.648 eleitores estão habilitados a votar. Na Venezuela, pesquisas de boca de urna são proibidas. Os primeiros números oficiais são esperados para a madrugada de segunda-feira.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.