Sob cenário incerto, venezuelanos vão às urnas e ameaçam poder de Chávez

Tensão. Últimas pesquisas, há uma semana, mostravam atual presidente na liderança, mas desafiado por crescimento sólido do opositor Henrique Capriles, apontando para um resultado apertado; especialistas não descartam hipótese de reações violentas

ROBERTO LAMEIRINHAS , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2012 | 03h07

A Venezuela vai às urnas hoje para aquela que pode ser a mais disputada eleição presidencial desde 1998, quando o candidato Hugo Chávez - que se tornara conhecido por ter liderado uma fracassada tentativa de golpe seis anos antes - chegou ao poder. Chávez está na frente nas intenções de voto na maior parte das pesquisas até o fim de semana passado, a partir do qual a divulgação de sondagens se tornou proibida pela lei eleitoral.

No entanto, essas mesmas pesquisas indicavam uma tendência de crescimento da candidatura do opositor Henrique Capriles Radonski, o jovem governador de Miranda em torno do qual se reuniram todas as forças da oposição para levar adiante um único projeto: remover Chávez da cadeira presidencial.

Agências internacionais de análise de risco ainda apostavam, nos últimos dias de campanha, numa vitória por margem estreita do presidente.

Talvez como reflexo da redução das vantagens nas pesquisas, Chávez e seus assessores mais próximos têm feito, em discursos e entrevistas destes últimos dias, raras admissões de falhas administrativas do governo bolivariano, seguidas de apelos ao fervor patriótico e revolucionário. "O que está em jogo aqui não é se você vai ficar duas horinhas sem luz, mas a independência e soberania da Venezuela, ameaçada pela ultradireita que quer voltar à presidência com o 'majunche' (insulto que pode ser traduzido como 'imbecil' e pelo qual os chavistas se referem a Capriles)", declarou na terça-feira Mario Silva, espécie de porta-voz televisivo do chavismo e apresentador da estatal Venezolana de Televisión (VTV).

"Uma vitória de Chávez por uma diferença incontestável manteria a situação política atual", afirma, sob condição de anonimato, um diplomata europeu estabelecido em Caracas. "Talvez, em razão de sua doença (um câncer pélvico detectado há mais de um ano, cujo prognóstico é mantido como segredo de Estado), ele tenha de nomear um vice-presidente capaz de levar adiante seu projeto socialista. Poderia ser (o chanceler) Nicolás Maduro, seu antigo camarada de armas Diosdado Cabello ou seu irmão Adán Chávez."

No caso de triunfo apertado de Capriles, diz a fonte, uma reação das massas chavistas - as mesmas que desceram os morros para frustrar a tentativa de golpe contra Chávez em 2002 - é um cenário possível. Segundo versões que circulam no país desde a chegada do líder ao poder, milicianos dos Círculos Bolivarianos estão ou podem rapidamente ser armados. Nesse cenário, Chávez poderia, caso obtenha o apoio de seus aliados em postos-chave das Forças Armadas, ficar tentado a não entregar o poder à oposição.

"Não creio que essa opção seja viável para Chávez, porque ela não está em suas mãos", diz o articulista Rubens Yanes, do jornal de Caracas El Universal. Um golpe causaria o isolamento internacional do país.

Ontem, o ministro da Defesa Henry Rangel Silva disse por meio de sua conta no Twitter que as Forças Armadas preservarão a democracia na Venezuela. "Estamos capacitados, motivados e equipados para cumprir essa nobre missão", escreveu.

Na hipótese de vitória apertada de Chávez, os distúrbios poderiam vir de grupos antichavistas desconfiados da lisura do processo. Levando essa opção em conta, os chavistas têm exigido da oposição a garantia de que reconhecerão os resultados e não acirrarão os ânimos de seus partidários com denúncias de fraude.

Se Chávez vencer e, em razão de sua saúde, ficar incapacitado de exercer o cargo nos primeiros quatro anos do mandato de seis, a Constituição prevê que o vice-presidente - escolhido pelo presidente - assuma o poder e convoque uma nova eleição. Se a vacância ocorrer nos últimos dois anos, o vice exerce o cargo até o fim do mandato.

Já uma vitória por larga vantagem de Capriles tiraria Chávez do Palácio de Miraflores, mas não colocaria fim imediato no projeto bolivariano. "Há estruturas oficiais que os chavistas controlam com mão de ferro em vários Estados", explica Yanes.

De acordo com o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), 18.802.648 eleitores estão habilitados a votar. Na Venezuela, pesquisas de boca de urna são proibidas. Os primeiros números oficiais são esperados para a meia-noite (1h30 de amanhã no Brasil).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.