REUTERS/Jeanty Junior Augustin
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Sob condições precárias, apuração das eleições presidenciais no Haiti deve demorar uma semana

Na maioria dos locais não há energia elétrica e os funcionários trabalham com lanternas ou velas; apesar do momento político, população está mais preocupada em encontrar água potável e alimentos

O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2016 | 14h20

PORTO PRÍNCIPE - Os haitianos compareceram às urnas no domingo para escolher o presidente, deputados e senadores, em uma votação sem grandes incidentes, mas a longa espera pelos resultados, que devem ser divulgados em mais de uma semana, pode provocar tensões.

"Podemos dizer sem dúvida que foi um dia de êxito para o país", afirmou Leopold Berlanger, presidente do Conselho Eleitoral Provisório (CEP). "A segunda parte será a dos resultados e aceitação democrática dos resultados", completou.

Após o fechamento dos locais de votação às 16h locais (19h em Brasília), teve início a apuração, na presença de representantes dos partidos políticos. As operações acontecem em condições precárias. Na maioria dos locais não há energia elétrica e os funcionários trabalham com lanternas ou velas.

Quase 6,2 milhões de haitianos foram convocados a votar em um dos 27 candidatos presidenciais e a preencher 25 das 109 cadeiras de deputados e 16 dos 30 de senadores. "Os resultados preliminares do primeiro turno serão divulgados em um prazo máximo de oito dias", afirmou Berlanger.

Mais de 9,4 mil policiais foram mobilizados em todo o país, apoiados por 1,4 mil agentes da missão da ONU, e 18 pessoas foram detidas por delitos menores.

A missão de observação da Organização dos Estados Americanos (OEA) manifestou satisfação. "Notamos algumas melhorias quanto à organização, como o uso de tinta indelével e a instalação de cabines isoladas, o que contribuiu para um processo mais tranquilo", elogiou Cristóbal Dupuy, vice-chefe da missão da OEA no Haiti.

A eleição presidencial aconteceu depois que a primeira votação, em 25 de outubro de 2015, foi anulada em razão de fraudes massivas, que causaram intensos protestos da oposição. O então presidente, Michel Martelly, concluiu seu mandato em 7 de fevereiro. No mesmo mês, o Parlamento elegeu o titular do Senado, Jocelerme Privert, como presidente interino por três meses, mas as divisões políticas e as frágeis instituições do país impediram que as eleições fossem reorganizadas.

Mais tarde, foi definido que o primeiro turno presidencial ocorreria em 9 de outubro. No entanto, a votação foi adiada mais uma vez, visto que 5 dias antes o furacão Matthew havia arrasado o país e deixado mais de 500 mortos.

Um dos principais candidatos à presidência é Jovenel Moïse, que ganhou a votação anulada de 2015 após ser escolhido por Martelly para representar seu partido, o PHTK (Partido haitiano Tèt Kale). Também volta a se apresentar seu principal rival, Jude Célestin, pela Liga Alternativa para o Progresso e a Emancipação do Haiti (LAPEH), que ficou em segundo na votação anulada, a qual ele qualificou de "farsa ridícula".

O senador Moïse Jean-Charles, feroz detrator de Martelly, disputa pelo Partido Petit Dessalines, e Maryse Narcisse, colaboradora próxima do ex-presidente Jean Bernard Aristide, é uma das duas mulheres que brigam pela presidência.

Segurança. Cansados da crise eleitoral, os haitianos mostram pouco entusiasmo para participar da votação e, nas regiões afetadas pelo Matthew, os habitantes estão mais preocupados em encontrar água potável e alimentos do que em eleger seus futuros dirigentes.

Para evitar fraudes, as autoridades instalaram novas cabines de votação para dar maior privacidade aos eleitores. Os representantes dos partidos políticos foram obrigados a apresentar um documento de identidade com foto no momento do voto.

O governo também reforçou a segurança, depois que o primeiro turno das eleições legislativas, em agosto de 2015, foi marcado por distúrbios violentos que provocaram a anulação da votação em quase 25% das circunscrições. O porte de armas foi suspenso durante o domingo e nenhum veículo estava autorizado a aproximar-se a menos de 100 metros dos locais de votação.

"As atas de votação devem chegar com anomalias e será necessário analisá-las para ver se seriam erros técnicos ou tentativas de fraude. Seria pouco saudável ou inapropriado incluí-las na contagem de atas fraudulentas", disse Grégory Hilaire, vice-diretor do centro de apuração de votos.

Se nenhum dos candidatos presidenciais receber mais de 50% dos votos, um segundo turno acontecerá no dia 29 de janeiro de 2017. / AFP

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