Sob controle da China, ex-colônia perde liberdades

ONGs e ativistas de Hong Kong alertam para o rápido recuo de direitos fundamentais desde que a ilha foi devolvida pelo governo de Londres a Pequim

CLÁUDIA TREVISAN, ENVIADA ESPECIAL / HONG KONG, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h09

As políticas chinesas restritivas de direitos civis e liberdade de expressão começam a ter impacto em Hong Kong, apesar da promessa de que a ex-colônia britânica manteria suas instituições intactas por 50 anos. No mais recente levantamento sobre a liberdade de imprensa da ONG Repórteres Sem Fronteiras, a ilha caiu 20 posições, para o 54.º lugar, entre 179 países.

Segundo o relatório da entidade, houve uma "acentuada deterioração" da liberdade de imprensa na região. "Prisões, agressões e intimidações pioraram as condições de trabalho dos jornalistas em uma extensão não registrada anteriormente, em um sinal preocupante de mudança na política governamental."

A liberdade de manifestação, inexistente na China, é outra característica de Hong Kong que começa a sofrer ataques. No ano passado, o número de pessoas presas por participar de protestos bateu recorde. Foram 228 só no dia 1.º de julho, a data que marca a transferência de Hong Kong da Grã-Bretanha para a China. Desde 1997, milhares de manifestantes ocupam as ruas de Hong Kong nesse dia para defender suas garantias e protestar contra o cerco imposto por autoridades locais e de Pequim.

"A política do governo está cada vez mais draconiana", disse o presidente da organização Poder do Povo, Christopher Lau. Segundo ele, dez integrantes do movimento estão sendo processados sob a acusação de "manifestação ilegal" no 1.º de julho, incluindo os dois parlamentares da legenda.

A mais numerosa das marchas anuais ocorreu em 2003, quando 500 mil pessoas se reuniram para protestar contra o projeto de uma "lei antissubversão" promovido pelo então executivo-chefe, o impopular Tung Chee Hwa, que foi obrigado a recuar.

O cientista político Dixon Ming Sing, professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong, acredita que há deterioração no terreno dos direitos e garantias individuais, com restrições no acesso à informação e crescente interferência de Pequim em questões locais.

A expressão da influência do Partido Comunista é o Escritório de Conexão do Governo Popular Central, localizado na região Oeste de Hong Kong. O parlamentar Alan Leong, presidente do Partido Cívico, alerta: "A influência aumenta a cada dia".

O também parlamentar Leung Kwok-hung, da Liga dos Social-Democratas, observou que o controle chinês se manifesta nos âmbitos político e econômico. "Mais da metade das empresas que compõem o índice da Bolsa de Hong Kong é da China continental", exemplificou. Dessas, quase todas são megaestatais controladas pelo Partido Comunista.

À primeira vista, Leung tem um gabinete no qual qualquer comunista deveria se sentir confortável: um enorme cartaz com o rosto de Karl Marx destaca-se em uma das paredes, entre imagens de Che Guevara. Mas sua divergência em relação a Pequim fica evidente na outra parede, na qual está a foto de Liu Xiaobo, o ativista ganhador do Nobel da Paz que cumpre pena de 11 anos de prisão.

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