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Sob críticas de ignorar efeitos de furacão, Trump flexibiliza ajuda a Porto Rico

Ilha tem problemas de abastecimento de água potável, energia elétrica e gasolina depois das passagens das tempestades Maria e Harvey

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2017 | 11h32
Atualizado 26 Dezembro 2017 | 21h13

WASHINGTON - Após dias sob pressão, o presidente americano, Donald Trump, cedeu nesta quinta-feira, 28, e flexibilizou por dez dias as restrições de transporte marítimo para acelerar o envio de ajuda humanitária a Porto Rico, território americano devastado na semana passada pelo furacão Maria. 

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 As restrições são parte de uma lei de quase um século, conhecida como Jones Act, que exige que as mercadorias transportadas entre portos americanos circulem em navios americanos explorados por um operador americano. O objetivo era impedir que embarcações com bandeira estrangeira levassem ajuda a território americano. 

Mario Sorani está há nove dias sem luz e sem água em sua casa em San Juan, capital de Porto Rico, atingido na semana passada pelo mais violento furacão dos últimos cem anos de sua história. O arquiteto e motorista do Uber pertence à minoria que manteve acesso a serviços de celular, mas isso não foi suficiente para ele falar com o padrasto e a irmã que vivem no centro do país, onde as comunicações continuam interrompidas.

Sem água, Sorani toma banho no mar e restringe seu consumo diário a uma garrafa de meio litro. “As pessoas estão desesperadas. Há escassez de comida, de serviços médicos e de gasolina. Em alguns lugares, não há água potável”, disse ao Estado por celular, cuja bateria é recarregada em seu carro.

Segundo ele, algumas regiões da capital ainda estão submersas. Em todo o país, inúmeras estradas estão intransitáveis, o que dificulta a distribuição de suprimentos. Sem eletricidade, os hospitais funcionam com geradores movidos a diesel ou gasolina, mas a oferta dos produtos é precária, o que faz com que muitos estejam fechados.

O hospital infantil San Jorge ficou sem energia durante oito horas no início da semana e teve de dispensar 40 pacientes, segundo reportagem da National Public Radio. Na quarta-feira, a instituição recebeu 40 mil litros do combustível, que garantirá seu funcionamento até amanhã.

“Nunca houve algo tão devastador na história moderna de Porto Rico”, disse Armando Montero González, diretor de uma escola fundamental, também por telefone. Depois de ignorar a tragédia na ilha por cinco dias, nos quais focou sua atenção nas críticas a jogadores da NFL, o presidente Donald Trump passou a falar publicamente do assunto na segunda-feira, em tuítes nos quais criticou a elevada dívida e o estado degradado da infraestrutura do território americano.

Diante do silêncio presidencial, a crise enfrentada pela ilha era ressaltada por congressistas, artistas porto-riquenhos e os governadores de Nova York, Andrew Cuomo, e da Flórida, Rick Scott, que visitaram a ilha e anunciaram a liberação de ajuda à população local. Há três dias, Trump disse que irá a Porto Rico na terça-feira. “Se não tivesse havido essa pressão, não creio que ele daria a atenção que está dando ao desastre”, disse Montero.

A ilha foi primeiro atingida pelo furacão Irma, que interrompeu o suprimento de energia temporariamente, mas não foi devastador. Uma semana mais tarde, veio o Maria, que derrubou a rede elétrica e a maioria das torres de celular de Porto Rico. Dezenas de vilarejos continuam isolados. As escolas estão fechadas e, segundo Montero, não há previsão para sua reabertura. 

Porto Rico já sofria uma crise econômica, que levou o território a declarar moratória no início de maio. Nos últimos dez anos, milhares de moradores da ilha, que são cidadãos americanos, se mudaram para os EUA. Hoje, há mais porto-riquenhos no continente do que em Porto Rico. Sem acesso a serviços de celular, muitos dos que foram atingidos pelo furacão não conseguiram ainda se comunicar com familiares que estão nos Estados Unidos. 

Críticas partiram do próprio partido do presidente, o Republicano. Dois senadores do legenda, John McCain (Arizona) e Mike Lee (Utah), apresentaram uma proposta legislativa hoje para que a ilha de Porto Rico seja permanentemente excluída do Jones Act. Segundo os dois senadores, o alívio da medida não será suficiente para permitir que a ajuda chegue à ilha e para que ela seja reconstruída. / COM AFP, EFE e AP 

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