Sob denúncia, Paraguai vota adesão venezuelana ao Mercosul

Entrada de Caracas é respaldada por Lugo, mas oposição é maioria no Parlamento

Ariel Palácios, Agência Estado

10 de dezembro de 2010 | 12h25

BUENOS AIRES - O senadores do Paraguai vão debater e votar nesta sexta-feira, 10, se a Venezuela entrará ou não como sócio do Mercosul, bloco fundado em 1991 pela Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. A aprovação da entrada da Venezuela é respaldada pelo presidente paraguaio Fernando Lugo - que não tem maioria parlamentar - e é criticada pela oposição, que conta com maioria.

 

Em Assunção, a eventual entrada da Venezuela é o foco de rumores de "incentivos econômicos" supostamente oferecidos a vários senadores paraguaios pelo governo venezuelano. As denúncias também indicam a oferta de cargos públicos à oposição por parte do governo paraguaio, em troca da aprovação.

 

Recentemente, o jornal ABC Color, o principal do Paraguai, denunciou que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, supostamente enviou US$ 6 milhões para serem distribuídos entre parlamentares paraguaios.

 

A Venezuela, que é atualmente "sócio pleno em estado de adesão", conseguiu nos últimos três anos que os parlamentos da Argentina, Brasil e Uruguai aprovassem sua entrada como "sócio pleno". Mas, a aprovação definitiva para que o país torne-se o quinto sócio pleno do bloco do Cone Sul pende unicamente da decisão do Senado paraguaio, onde o tratamento do caso venezuelano teve idas e vindas nos últimos dois anos.

 

Peso paraguaio

 

Políticos e analistas em Assunção destacam que nunca antes uma decisão de tal magnitude do bloco do Cone Sul havia ficado em mãos paraguaias. Eles consideram que "esta será uma chance para que o país seja ouvido finalmente no Mercosul", em alusão ao pouco peso que o Paraguai possui nas decisões do bloco, costumeiramente tomadas pelo Brasil e a Argentina.

 

Obter a aprovação não é tarefa fácil, já que as normas do Parlamento em Assunção indicam que para que um projeto de lei sobre a entrada de um novo sócio do Mercosul seja aprovado é necessária a maioria absoluta dos parlamentares, algo que o governo do presidente Lugo, de centro-esquerda, não possui. O Senado é controlado pela oposição, composta principalmente de partidos da centro-direita.

 

Para oficializar a entrada da Venezuela será necessário, além da aprovação do Senado, a rubrica de Lugo, favorável ao ingresso desse novo sócio, embora sem exuberante entusiasmo. Lugo havia encaminhado o tratamento da entrada da Venezuela no Senado paraguaio no ano passado. Mas, perante a iminência de uma derrota no plenário, optou por adiar o debate para 2010.

 

Sócio em espera

 

O governo venezuelano reclamou em diversas ocasiões nas cúpulas regionais sobre as demoras existentes na aprovação da entrada da Venezuela como sócio do Mercosul. O presidente Hugo Chávez, ao longo deste ano, argumentou que a entrada de seu país implicará em grandes benefícios para os países do bloco.

 

Enquanto em Caracas o governo venezuelano apresenta dados econômicos vantajosos para defender a inclusão de seu país no Mercosul, em Assunção, os parlamentares de oposição argumentam que não possuem nada contra a entrada da Venezuela no bloco pelo lado econômico e comercial.

 

Mas, destacam que o problema é pelo lado "político", já que o país é governado por Chávez, considerado pelos partidos opositores paraguaios como uma figura "autoritária" e "despótica", além de "populista". Os parlamentares paraguaios e diversas câmaras empresariais nos últimos meses alertaram para o eventual aumento da influência de Chávez na política interna dos países da região caso a Venezuela seja aceita no Mercosul.

 

No entanto, outros setores dos parlamentares paraguaios consideram que a entrada da Venezuela poderia ser favorável ao país. Eles argumentam que o ingresso de um novo país no Mercosul poderia melhorar a capacidade de negociação do Paraguai, rompendo com o atual predomínio do Brasil e da Argentina no Mercosul.

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