Sob forte segurança, Bento XVI chega a Turquia

Em meio a um forte esquema de segurança, o papa Bento XVI iniciou sua visita à Turquia nesta terça-feira com duas difíceis missões: aplacar a insatisfação dos muçulmanos devido a suas constantes críticas ao islamismo e superar a divisão com os cristãos ortodoxos. Está é a primeira viagem do pontífice a um país de maioria muçulmana, e acontece dois meses depois do alvoroço causado por uma polêmica declaração de Bento XVI sobre o islamismo. Não por acaso, o papa usou os primeiros momentos de sua viagem de quatro dias para tentar reaproximar-se de líderes islâmicos. "Todos temos a mesma responsabilidade neste momento difícil da história. Vamos trabalhar juntos", disse Bento XVI durante o vôo para Ancara. Ao chegar à capital turca, mais de 3 mil policiais e atiradores de elite faziam a segurança do pontífice, em um esforço que superou o realizado durante a visita do presidente americano, George, W. Bush, há dois anos. A rejeição ao papa na Turquia deve-se em grande parte a um discurso proclamado por Bento XVI em uma universidade da Alemanha em setembro, quando ele citou um imperador cristão do século 14 que caracterizava os ensinamentos do profeta Maomé como "maus e inumanos". Para piorar, antes de se tornar papa, Joseph Ratzinger havia criticado a entrada da Turquia na União Européia por considerar o país pouco adaptado à cultura ocidental. Mas, durante o vôo para o país muçulmano, o pontífice adotou tom conciliador: "Nós sabemos que o objetivo dessa viagem é o diálogo, a irmandade e o comprometimento pela compreensão e pela reconciliação entre as culturas." O papa foi recebido na pista do aeroporto de Ancara pelo primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Os dois trocaram cumprimentos e caminharam por um tapete vermelho até uma sala privativa do terminal, onde tiveram uma conversa particular. A decisão de Erdogan em receber o papa foi anunciada na última hora, na segunda-feira. Após a polêmica causada em setembro pelas palavras de Bento XVI, o premier - que é de um partido formado por muçulmanos moderados - havia anunciado que não poderia encontrar-se com o pontífice pois estaria na Letônia para uma cúpula de chefes de Estado da Otan. "Quero expressar minha felicidade em vê-lo com a sua delegação em meu país", disse Erdogan ao receber o papa. Ele descreveu a visita do sumo pontífice como "muito significativa". Protestos Entretanto, a mais de 40 quilômetros do aeroporto, dezenas de turcos protestavam contra a visita de Bento XVI. Por não conseguirem se aproximar do aeroporto por causa do esquema de segurança, os manifestantes concentraram-se em frente à Secretaria de Assuntos Religiosos, nos arredores de Ancara. O papa deverá visitar o local ainda nesta terça-feira. Os manifestantes, ligados a um sindicato conservador de servidores públicos, diziam que Bento XVI não é bem-vindo à Turquia. No último domingo, cerca de 25.000 pessoas protestaram em Istambul contra a visita do pontífice. A polícia turca monitorou a estrada que vai do aeroporto a Ancara, onde bandeiras turcas e do Vaticano tremulavam com uma leve brisa. Atiradores subiram nos tetos dos prédios. Em lugares arborizados, soldados camuflados estabeleceram pontos de observação e cachorros farejadores foram usados na inspeção de pontes. O discurso no qual o líder católico fez uma citação conectando o Islã à violência provocou indignação entre os muçulmanos em todo o mundo, e colocou em risco a realização da viagem à Turquia. Em seu primeiro compromisso oficial, Bento XVI visitou o mausoléu de Mustafa Kemal Ataturk, o fundador da Turquia moderna. No livro de convidados, ele escreveu uma mensagem chamando a Turquia de "um ponto de encontro entre diferentes religiões e culturas, e uma ponte entre a Europa e a Ásia". O objetivo original da viagem do papa é um encontro com Bartolomeu I, o principal líder dos mais de 300 milhões de cristão ortodoxos do planeta. As duas maiores vertentes do cristianismo, representados por Bartolomeu I e Bento XVI, dividiram-se em 1054 devido às diferentes opiniões sobre o poder do papado. Agora, os dois líderes encontram-se em uma tentativa de reunir as igrejas. Texto ampliado às 13h52

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