Sob novo governo, Cabul deve firmar hoje pacto para manter forças dos EUA

Novo rumo. Primeiro ato de Ashraf Ghani, que tomou posse ontem, será assinar o acordo bilateral de segurança rejeitado por seu antecessor, Hamid Karzai; soldados americanos darão treinamento e assessoramento ao Exército do Afeganistão e terão imunidade

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2014 | 02h03

A três meses do encerramento oficial da guerra no Afeganistão, os Estados Unidos vão obter hoje o acordo de segurança que permitirá a manutenção de tropas americanas no país até 2016. A assinatura do pacto ocorrerá um dia depois da primeira transferência pacífica de poder da história afegã, com a posse ontem do novo presidente Ashraf Ghani.

A cerimônia pôs fim a meses de incerteza política, marcados por acusações de fraude eleitoral e a ameaça de divisão do Afeganistão em grupos rivais liderados por Ghani e seu principal opositor, Abdullah Abdullah. Sob pressão dos EUA, os dois candidatos concordaram em formar um governo de unidade, no qual Abdullah desempenhará função semelhante à de primeiro-ministro.

Economista e antropólogo, Ghani trabalhou no Banco Mundial por dez anos e foi ministro das Finanças de Karzai de 2002 a 2004. Um dos primeiros atos de sua gestão será a assinatura do acordo bilateral de segurança, que os EUA gostariam que tivesse ocorrido há quase um ano. O ex-presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, rejeitou ratificar o documento, deixando a decisão a seu sucessor.

Mas acusações de irregularidade atrasaram a posse do novo presidente em quase três meses, adiando a definição do acordo. Sem ele, os quase 30 mil soldados americanos que estão no Afeganistão teriam de sair do país em 31 de dezembro, no momento em que a insurgência do Taleban ganha fôlego.

O pacto dá imunidade aos soldados e permite que eles sejam julgados por cortes dos EUA. O objetivo de Washington é manter 9,8 mil soldados no Afeganistão a partir de janeiro de 2015, número que seria reduzido a cerca da metade no prazo de um ano, até a retirada total das tropas no fim de 2016. O contingente não estará envolvido em operações de combate e terá a missão de assessorar e treinar as forças de segurança afegãs.

Em seu discurso de posse, Ghani pediu ao Taleban que se engaje em negociações de paz. "A segurança é uma das principais demandas da população. Estamos cansados dessa guerra", afirmou. Mas a oferta foi rejeitada pelo grupo, que vem expandindo seus domínios na medida em que as tropas internacionais reduzem sua presença no Afeganistão.

Deposto na invasão americana em 2001, o Taleban boicotou as eleições e tem realizado atentados pelo país. Pouco antes de Ghani discursar na cerimônia de posse, um ataque suicida matou quatro membros das forças de segurança afegãs e três civis perto do aeroporto de Cabul.

A sucessão pôs fim a quase 13 anos de governo Karzai, o homem escolhido pelos EUA para liderar o Afeganistão em dezembro de 2001. Após chefiar um governo interino, Karzai venceu as eleições presidenciais de 2004 e 2009, também marcadas por acusações de fraude.

O secretário de Estado americano, John Kerry, agradeceu ontem a colaboração de Karzai, com o qual Washington teve uma difícil relação nos últimos anos. "Não é nenhum segredo que nosso relacionamento com o presidente Karzai foi pontuado por desacordos. Mas sempre o mundo reconheceu que ele é um nacionalista e uma figura importante, que assumiu a liderança quando seu país precisava."

Por semanas, Abdullah ameaçou não reconhecer a eleição de Ghani e criar um governo paralelo. Vencedor do primeiro turno, em abril, sustentou que irregularidades garantiram a liderança do rival no segundo turno, em junho. Entre as condições que impôs para participar do novo gabinete estava a não divulgação dos resultados da eleição. Mas o certificado da Comissão Eleitoral Independente, revelado por Ghani, diz que o novo presidente teve 55,3% dos votos. No domingo, Abdullah ameaçou boicotar a cerimônia, mas ontem estava ao lado de Ghani.

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