REUTERS/Oswaldo Rivas
REUTERS/Oswaldo Rivas

Sob Ortega, não se pode protestar

Quase dois anos após início das manifestações contra o governo, movimento apenas levou a mais prisões e violentas repressões

THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2019 | 06h00

MASAYA, NICARÁGUA  - Diana Lacayo nunca imaginou que uma greve de fome em uma igreja pudesse se transformar em um cerco de nove dias, com a polícia do lado de fora e a eletricidade e a água cortadas do lado de dentro. Mas, para as autoridades nicaraguenses, mesmo esse modesto protesto era uma provocação que precisava ser esmagada.

Por quase dois anos, os nicaraguenses se levantam contra o jugo da família Ortega, acusada de transformar a Nicarágua em um feudo pessoal: o presidente não tem limites ao mandato, a primeira-dama é vice-presidente e seus filhos ocupam cargos importantes em setores como gás e televisão.

Diante da agitação, o governo adotou medidas inflexíveis para silenciar a dissidência pública. Apesar da economia em colapso, das sanções dos EUA e da migração em massa, o presidente Daniel Ortega e sua mulher, Rosario Murillo, se mantêm firmes no poder.

Antes visto como herói nacional, por sua liderança da Frente Sandinista que derrubou a ditadura de Anastasio Somoza na década de 70, Ortega agora é visto por muitos dessa geração de nicaraguenses como um governante autocrático.

Enquanto ativistas pró-governo semeiam violência nas ruas, as vozes da dissidência são silenciadas com prisão e agressão. Cansados e atacados por apoiadores do governo, os manifestantes às vezes voltam para casa sem telefones nem sapatos.

Desesperadas para serem ouvidas, Lacayo e outras oito mulheres se reuniram para ver se uma greve de fome poderia resultar na liberdade de seus maridos, irmãos e filhos, ativistas políticos que estão definhando nas prisões do governo. Quando a greve acabou, 14 pessoas ao todo, entre elas um padre católico, haviam passado mais de uma semana trancadas dentro da igreja, cercadas pela polícia, quase sem suprimentos básicos.

“Eles nos deixaram como ratos no buraco”, disse o reverendo Edwing Román, o padre que ficou preso na igreja com as manifestantes.

Para os nicaraguenses, foi mais um lembrete de que uma simples manifestação pode ter consequências graves.

No ano passado, o presidente parecia estar ameaçado, enquanto os nicaraguenses realizavam seus maiores protestos em décadas. Embora o governo tenha se recuperado, as grevistas em San Miguel Arcángel e outros manifestantes foram motivados pela queda do aliado boliviano de Ortega, Evo Morales.

Mas, apesar de toda a ideologia e das inclinações autoritárias que compartilham, Ortega gosta de uma coisa de que Evo não gosta: os militares e a polícia nacional ficaram ao seu lado, protegendo-o, assim como as forças de segurança protegem Nicolás Maduro na Venezuela e outros líderes autoritários ao redor do mundo.

E assim, na Nicarágua, os protestos levaram apenas a mais prisões, mesmo neste momento em que a crise assola o país. A economia está patinando e quase 100 mil pessoas fugiram da Nicarágua.

Diante de tudo isso, Ortega e sua mulher pintam um retrato da Nicarágua como um país muito mais seguro que seus vizinhos, e um novo slogan alerta para os perigos da perturbação social: “Não se brinca com a paz”. Mas a Nicarágua não está nem um pouco segura.

Os protestos começaram em abril de 2018, quando cidades inteiras se levantaram contra os Ortegas. Começaram por causa de cortes na previdência social, mas logo se transformaram em uma crítica generalizada contra o governo cada vez mais antidemocrático. A Suprema Corte havia sido acossada, os parlamentares, expulsos, as eleições municipais, fraudadas, e os limites de mandato, ignorados.

Três meses depois, o governo tomou as ruas de volta. Em uma repressão esmagadora, a polícia disparou contra manifestantes que haviam erguido barricadas em todo o país. Mais de 300 pessoas morreram, entre elas 22 policiais.

Dezenas de manifestantes, que queimaram prédios, tomaram universidades por meses e bloquearam estradas por semanas, ainda estão detidos, entre eles o filho de Lacayo, Scannierth Merlo Lacayo, de 22 anos, que foi condenado a 5 anos de prisão.

Em novembro, Diana Lacayo e outras mulheres com parentes presos se aproximaram de Román e perguntaram se poderiam usar sua igreja para uma greve de fome. O padre concordou: “Pensando que este era um país civilizado, eu disse que sim”.

Román, de 59 anos, é um dos vários padres da Nicarágua que assumiram papéis de liderança na insurreição – um grupo de clérigos que não mediu palavras e empregou termos como “ditadura” para descrever o governo.

O governo afirma que muitos manifestantes estão armados e a mídia ignorou as atrocidades que cometeram, incluindo assassinatos e queima de prédios do governo. Manifestantes como Karen Lacayo Rodríguez, de 42 anos, rejeitam as alegações. “Eles dizem que temos mísseis e isso e aquilo, mas a única arma que temos é a bandeira e a nossa voz”, disse. “Queremos uma Nicarágua livre.” / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.