Natacha Pisarenko / AP
Natacha Pisarenko / AP

Sob pedidos de renúncia, presidente interina tenta pôr fim a protestos na Bolívia

Na sexta, confrontos em Cochabamba deixaram nove mortos; Evo Morales defende que ‘esses crimes de lesa humanidade não devem ficar impunes’

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2019 | 17h56

LA PAZ - O novo governo da Bolívia adotou esforços neste domingo, 17, para dar fim às manifestações que em um mês deixaram 23 vítimas, enquanto grupos de camponeses leais ao ex-mandatário Evo Morales deram à presidente interina, Jeanine Áñez, 48 horas para renunciar. 

O principal foco dos confrontos havia se concentrado em Cochabamba, onde na sexta-feira cocaleiros entraram em confronto com o Exército e a polícia, deixando nove mortos, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

O governo reconheceu oficialmente cinco mortos, e o ministro do Governo, Arturo Murillo, sugeriu que os próprios camponeses atiram uns nos outros para produzir vítimas, pois pelo menos um morto "aparece com um tiro na nuca".

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Contudo, Thomas Becker, advogado americano da Clínica Internacional de Direitos Humanos de Harvard, disse que foi ao necrotério da cidade de Sacaba, onde os nove cocaleiros morreram. "Todos morreram por impacto de bala”, afirmou ele. "Todos com quem falei disseram que (nas manifestações) não havia nenhuma pessoa civil com uma arma."

Violência

O ex-presidente Evo Morales, asilado no México desde terça-feira após renunciar no domingo por perder apoio dos militares, disse no Twitter que "esses crimes de lesa humanidade (...) não devem ficar impunes".

Jean Arnault, enviado do secretário-geral da ONU, António Guterres, começou a entrar em contato com autoridades do governo de Jeanine e organizações sociais, em uma tentativa de restaurar a paz no país, em convulsão política desde a questionada reeleição de Evo em outubro.

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No Twitter, a CIDH chamou de "grave" o Decreto 4078 do governo de Jeanine, aprovado na quinta-feira, que exime as Forças Armadas de suas responsabilidades penais na conservação da ordem pública. "O grave decreto da Bolívia ignora os parâmetros internacionais de direitos humanos e estimula a repressão violenta", advertiu o organismo.

Ultimato

Em razão dos bloqueios de vias em várias regiões, o desabastecimento de gêneros alimentícios começa a ser notado nos mercados populares, o que gera preocupação.

O governo enviou um avião com 35 toneladas de carne para La Paz e prometeu outras 25 toneladas de frango nos próximos dias. Mas a pressão contra as novas autoridades se mantém.

Seis sindicatos de cultivadores de coca de Chapare, reduto de Evo, exigiram na noite de sábado "a renúncia da autoproclamada presidente de fato Jeanine Áñez Chávez em um prazo de 48 horas".

Entre outros nove pontos, os cocaleiros pediram ao Legislativo a aprovação de uma lei "que garanta eleições nacionais em um prazo de 90 dias".

Uma associação de moradores de El Alto aprovou também "um cerco à cidade de La Paz" a partir de segunda-feira para forçar "a renúncia imediata" de Jeanine, qualificando sua chegada à presidência como ilegal. / AFP

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