US Marine Corps via REUTERS
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Taleban ataca reduto da resistência e rejeita ampliar prazo de saída dos EUA

Grupo lança ofensiva contra combatentes rebeldes no Vale de Panjshir, último bastião da oposição aos extremistas no Afeganistão; Casa Branca envia forças especiais para acelerar processo de retirada de americanos e colaboradores afegãos de Cabul 

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 16h58
Atualizado 24 de agosto de 2021 | 12h09

CABUL - O Taleban atacou nesta segunda-feira, 23, o último reduto da resistência afegã, formada por combatentes no Vale de Panjshir. Os confrontos acontecem no momento em que os EUA tentam ampliar o prazo para a saída completa de suas tropas do Afeganistão – dia 31. O objetivo seria manter os soldados para dar segurança na retirada de americanos e colaboradores afegãos de Cabul. 

Segundo Ali Nazary, uma espécie de chanceler da Frente de Resistência Nacional do Afeganistão, a coalizão de combatentes anti-Taleban, os combatentes da resistência repeliram nesta segunda-feira os ataques dos extremistas em Panjshir, uma área montanhosa 125 quilômetros ao norte de Cabul, após várias batalhas que começaram na noite de domingo. “Eles atacaram Panjshir, mas não conseguiram avançar e recuaram”, disse Nazary. 

O Taleban confirmou nesta segunda-feira ter enviado centenas de combatentes à região montanhosa, postando vídeos nas redes sociais que mostram milicianos viajando para Panjshir. O grupo, no entanto, não deu detalhes sobre o andamento dos combates. 

Amrullah Saleh, de 48 anos, ex-vice-presidente afegão, e Ahmad Massoud, de 32, filho de Ahmad Shah Massoud, um conhecido guerrilheiro que lutou contra a invasão da União Soviética, nos anos 80, são os dois líderes da Frente de Resistência Nacional do Afeganistão – Shah Massoud foi assassinado pela Al-Qaeda, em 2001.

Nesta segunda-feira, mais uma vez, Massoud pediu apoio internacional para lutar contra o Taleban. Ele insistiu na ajuda de europeus, árabes e americanos, os mesmos que, segundo ele, apoiaram a luta de seu pai contra o Taleban, nos anos 90. “Temos estoques de munição e armas que coletamos pacientemente desde a época de meu pai, porque sabíamos que esse dia poderia chegar”, disse.

O Taleban ainda luta para consolidar o controle do país – além de Panjshir, o grupo ainda não domina o aeroporto de Cabul, embora seja uma questão de tempo até que as tropas ocidentais entreguem o controle do local. Em busca de reconhecimento internacional, os extremistas tentam projetar moderação, prometendo anistia aos que trabalharam com o governo anterior, além de proteção aos direitos das mulheres. No entanto, relatos de violência contrariam as promessas. 

“Temos algumas evidências e relatos de diferentes províncias dizendo que as mulheres não podem mais sair de casa sem a companhia de um homem”, disse Mohamed Naciri, diretor da ONU Mulheres para a Ásia-Pacífico. “Em algumas províncias, as mulheres estão obrigadas a ficar em casa.” 

Há relatos também de violência contra tradutores e jornalistas – um parente próximo de um editor da Deutsche Welle, emissora de TV alemã, foi assassinado. Amdadullah Hamdard, que trabalhava para o jornal Die Zeit, foi morto no dia 2.

Alguns líderes políticos, como Hamid Karzai, ex-presidente afegão, e Abdullah Abdullah, ex-chanceler, estão negociando com altos funcionários do Taleban para formar um governo de união. Países vizinhos, incluindo Paquistão e China, deram sinais de que um governo inclusivo seria uma precondição para reconhecer o novo regime.

A ofensiva contra Panjshir, no entanto, vem minando as chances de um governo com representantes de todos os grupos étnicos do Afeganistão, segundo Nazary. “O Taleban está empolgado. Eles não estão ouvindo os países vizinhos”, disse. “Eles acreditam ter derrotado a superpotência (EUA) e ninguém mais pode detê-los. Eles estão testando seus limites, é isso que estão fazendo em Panjshir.”

Retirada

Outro desafio do Taleban nos próximos dias será lidar com a retirada de americanos do aeroporto de Cabul. O prazo para a saída completa das tropas, estabelecido pelo presidente dos EUA, Joe Biden, termina no dia 31. Pressionado, Biden disse que estuda ampliar a data – o que foi rejeitado nesta segunda-feira pelo grupo. “Se estenderem o prazo, significa que estão estendendo a ocupação. Isso vai criar desconfiança entre nós”, disse Suhail Shaheen, porta-voz do Taleban. 

Correndo contra o tempo, Biden enviou nesta segunda-feira forças especiais para o aeroporto da capital afegã para acelerar o ritmo da retirada. O objetivo da Casa Branca seria alocar 5,8 mil militares na área para dar mais segurança para o embarque. Em agosto, segundo o governo americano, quase 30 mil pessoas já foram resgatadas de Cabul. /NYT, AFP e AP

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